Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 24 de abril de 2020
Se a demissão do ministro Luiz Henrique Mandetta da Saúde indicava a exaustão de meios políticos do governo Jair Bolsonaro em meio à pandemia do novo coronavírus, a saída de Sérgio Moro da Justiça e Segurança Pública enterra de vez a gestão que assumiu o País há 480 dias.
Moro saiu atirando, abrindo na prática o caminho para um pedido de impeachment do seu ex-chefe.
Em seu pronunciamento, acusou diretamente Bolsonaro de interferir no combate à corrupção ao exonerar sem sua anuência o diretor da PF (Polícia Federal), Maurício Valeixo, prever mudanças em superintendências estaduais do órgão e pedir acesso a relatórios de investigações.
Moro apontou “interferência política na Polícia Federal”, rompendo a promessa de autonomia e “carta branca” que lhe havia sido dada ao aceitar o cargo no fim de 2018.
Não é apenas uma acusação que implode uma das fundações do edifício do bolsonarismo: é a insinuação de um crime de responsabilidade que pode embasar, de forma bastante objetiva, um pedido de impeachment contra o ex-chefe.
Uma estocada dura em Bolsonaro foi a citação de Moro ao fato de que, quando era o terror do PT e aliados como juiz da Lava-Jato, a PF foi mantida sem interferência, por virtude republicana ou pressão da sociedade. Até uma piscada à esquerda o agora ex-ministro deu.
Em uma tacada, Moro subiu no caixote da Lava-Jato como discurso para sua eventual candidatura a presidente em 2022 e deu munição para ser protagonista do processo de adiantar a mudança na titularidade do Planalto. De uma forma ou de outra, é candidato com discurso pronto.
“Sempre estarei à disposição do País”, foi a senha final, um clichê clássico. Moro sai do governo e entra na faixa de eleitorado de Bolsonaro e de presidenciáveis como o governador paulista, João Doria (PSDB).
Sobrou até para a indiferença aos aspectos humanos da pandemia demonstrados por Bolsonaro, com a referência de Moro aos 407 mortos pela Covid-19 registrados na quinta (23) no País. O ex-ministro já havia se declarado a favor do isolamento social combatido pelo então chefe.
A demissão abre as portas para a saída de outros incomodados, como o outro antigo pilar do governo, Paulo Guedes (Economia). Desgastado pela intervenção da ala militar em sua área, com direito a plano econômico, o ex-superministro está por um fio.
Apenas o desespero explica a ação de Bolsonaro. Moro não é só uma das âncoras de popularidade do governo, ele é um imã que manteve fiel ao presidente uma parte considerável do eleitorado que não o abandonou após assumir a cadeira.
Símbolo da Operação Lava-Jato, uma das responsáveis pela ascensão de Bolsonaro pela implosão da política tradicional, Moro fala diretamente aos cerca de 30% de apoio que o presidente tem.
O bolsonarismo fagocitou o lava-jatismo e o moldou aos interesses de seu líder, e tudo indica que isso falou mais alto novamente no episódio da demissão de Moro.
Que Bolsonaro se sente ameaçado por investigações acerca das relações de seu filho 01, o senador Flávio, com o submundo das milícias ou do “gabinete do ódio” tocado pelo 02, Carlos, com as redes de fake news e atos pró-golpe, isso é conhecido.
Dando um altamente ingênuo benefício da dúvida ao presidente, ele pode achar que é alvo de uma perseguição. Ou, como é mais provável, sente o cheiro de queimado. Como disse Moro, a Superintendência da PF no Rio, terra do clã, era um dos alvos de mudança.
Em qualquer hipótese, está procedendo uma mudança não republicana e personalista na estrutura policial do Estado. Isso é crime, mais um numa série razoável à qual Moro acrescentou o uso indevido de seu nome no ato que exonerou Valeixo. A essa altura, Bolsonaro parece não se preocupar.
O que mostra desespero, por insinuar que de fato deve algo e teme a polícia, e despreparo: um político mais experiente costuraria a permanência de Moro e depois o despacharia para a vaga de Celso de Mello no Supremo Tribunal Federal. (Folha de S.Paulo)
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