Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 24 de abril de 2020
O economista Fábio Terra, 35, tem acompanhado as medidas do governo federal para tentar amenizar os efeitos do coronavírus sobre o PIB com um certo sentimento pessoal de desforra.
Presidente da Associação Keynesiana Brasileira (AKB), Terra, 35, e seus colegas dessa escola de pensamento, que prega a presença forte do Estado na economia, passaram grande parte da década na defensiva, acossados pela onda liberal.
Agora, veem governos no Brasil e no mundo se renderem à necessidade de liberar recursos públicos e empreender grandes projetos de infraestrutura para tentar evitar uma depressão econômica.
“A agenda ultraliberal do Paulo Guedes está sendo jogada para nocaute, contra as cordas”, afirma ele, professor da Universidade Federal do ABC e da Universidade Federal de Uberlândia.
Fundada em 2008 e contando com 130 integrantes, a AKB segue a linha celebrizada pelo economista britânico John Maynard Keynes (1883-1946).
Autor intelectual do “New Deal”, conjunto de obras e programas sociais que foi a resposta dos EUA à Grande Depressão nos anos 1930, Keynes defendia que a atuação do Estado é fundamental para criar demanda e reanimar a economia. Leia abaixo alguns trechos da entrevista que o economista deu ao jornal Folha de S.Paulo.
– Está provada a frase atribuída ao economista liberal Milton Friedman, de que na crise, somos todos keynesianos? “Sim. Mas talvez isso seja um problema, ser keynesiano apenas na crise. Keynes era, mais do que um teórico, um homem prático. Era um grande investidor, gestor de fundos, e isso fazia com que tivesse contato com a economia muito além do âmbito teórico. Crise significa que o setor privado está saindo de cena. Nesta hora, o Estado precisa balancear. É ele que vai coletivizar os prejuízos e tomar atitude. A importância do Estado não é quando a crise aconteceu, é evitar que aconteça. É muito importante que o Estado tenha bala na agulha. O que é bem diferente do que aconteceu até agora no Brasil. A gente está muito atrasado.”
– Vivemos nos últimos anos uma onda liberal. Essa crise veio para arrefecer esse movimento, ou é apenas um espasmo keynesiano? “A gente agora vai ter uma disputa ideológica. Já se começa a perceber ruído no governo, com esse plano de investimentos em infraestrutura do Braga Netto, esse Plano Marshall brasileiro, de demanda efetiva estatal a pleno vapor.”
– O eixo da discussão mudou? “Acho que sim. A disputa de narrativas se abriu. O governo Dilma tentou fazer um dirigismo estatal muito forte, que eu não considero de maneira nenhuma keynesiano. Desde então se tentou fazer o avesso do governo Dilma, essa prática mais liberal, que começou com Temer e se acentuou muito profundamente com Bolsonaro.”
– A agenda ultraliberal do Guedes está derrotada? “Ela está de certa forma sendo jogada para nocaute, contra as cordas. Mas não quer dizer que tenha saído de cena.”
– O intervencionismo estatal não funcionou com Dilma, por que funcionaria agora? “Ele precisa ser cíclico. O Estado precisa sair quando a iniciativa privada vai bem. Não pode de maneira nenhuma forçar o acelerador, e foi isso que a Dilma fez a partir de 2012. É preciso estabilidade das medidas de política econômica, seja a política monetária ou a fiscal. Se ela é muito instável, acaba desconstruindo um horizonte de longo prazo. A Dilma teve um voluntarismo muito grande. Ela determinou taxa de retorno que empresário deveria ter para participar de concessão, por exemplo, fez mudança muito brusca no mercado de energia, entre outras coisas. Emitiu informações muito turvas. As informações têm que ser transparentes e combinadas com o setor privado, porque o setor privado que de fato faz o PIB do país.” As informações são do jornal Folha de S.Paulo.
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