Sexta-feira, 21 de agosto de 2026
Por Edson Bündchen | 20 de agosto de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
A rápida proliferação da Inteligência Artificial vem causando entusiasmo, e também apreensão, quase que na mesma medida. O ChatGPT, da Open AI, por exemplo, já detém mais de 1 bilhão de seguidores. Uma das dúvidas é se a IA nos tornará mais inteligentes ou mais burros? A resposta parece estar menos da tecnologia em si e mais da maneira como decidirmos utilizá-la.
A humanidade sempre externalizou capacidades. A escrita permitiu transferir parte da memória para o papel. A calculadora dispensou inúmeros cálculos mentais. O GPS reduziu a necessidade de memorizar caminhos. O Google colocou uma parcela gigantesca do conhecimento humano a poucos segundos de distância. Em todos esses casos, perdemos algumas habilidades enquanto adquirimos outras. A IA, entretanto, representa um salto qualitativamente diferente: pela primeira vez começamos a terceirizar não apenas memória ou cálculo, mas parcelas do próprio raciocínio.
Um profissional pode hoje utilizar inteligência artificial para analisar um contrato, elaborar uma estratégia, resumir um livro, interpretar uma planilha, preparar uma apresentação ou construir argumentos. Bem utilizada, a ferramenta funciona como uma extraordinária alavanca cognitiva. Permite comparar hipóteses, encontrar inconsistências, ampliar perspectivas e acessar conhecimentos que dificilmente uma única pessoa conseguiria reunir.
Existe, porém, um caminho oposto. Quando deixamos de perguntar à máquina “ajude-me a pensar” e passamos simplesmente a ordenar “pense por mim”, começa a externalização cognitiva. A conveniência transforma-se progressivamente em dependência.
O risco mais evidente sugere estar na ilusão de conhecimento. Nunca foi tão fácil parecer bem-informado sem necessariamente estar bem-informado. Uma pessoa pode produzir em poucos minutos um texto sofisticado sobre economia, filosofia, medicina ou estratégia empresarial e, ainda assim, possuir compreensão muito limitada sobre aquilo que está apresentando. Passamos a correr o risco de confundir acesso ao conhecimento com conhecimento, da mesma forma que podemos confundir uma resposta eloquente com uma resposta correta.
Nessa situação, a capacidade aparente do indivíduo aumenta enquanto sua capacidade cognitiva própria pode diminuir. Podemos traçar uma analogia com o corpo humano. Uma máquina pode multiplicar nossa força física, mas músculos que deixam de ser utilizados atrofiam. Algo semelhante pode ocorrer com determinadas capacidades intelectuais. Pensamento crítico, memória, escrita, argumentação e resolução de problemas também precisam ser exercitados. A tecnologia que potencializa essas competências pode igualmente enfraquecê-las quando passa a substituí-las.
Há, entretanto, alguns remédios para os riscos de emburrecimento. Em vez de pedir apenas respostas, podemos solicitar contrapontos. Em vez de aceitar conclusões, podemos exigir fundamentos. Podemos apresentar nosso próprio raciocínio e pedir que a máquina encontre suas fragilidades. Podemos comparar alternativas, testar hipóteses e confrontar argumentos. A IA, com os cuidados acima, deixa então de substituir o pensamento e passa a desafiá-lo.
O fato é que estamos diante de uma nova divisão intelectual. De um lado estarão aqueles que utilizarão a inteligência artificial para evitar o esforço cognitivo. Do outro, aqueles que a utilizarão para multiplicá-lo. Os primeiros terão respostas cada vez melhores para perguntas formuladas por outros. Os segundos poderão desenvolver uma capacidade inédita de formular perguntas melhores.
Durante muito tempo, inteligência significou, em grande medida, saber coisas. Na era da IA, quando máquinas conseguem armazenar e recuperar volumes de informação infinitamente superiores aos nossos, o valor humano tende a migrar para outra direção: saber perguntar, interpretar, duvidar, relacionar, julgar e decidir. Desse modo, a inteligência artificial tanto pode nos tornar mais inteligentes ou mais burros, depende do que escolhermos alimentar.
(Instagram: @edsonbundchen)
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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