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Ali Klemt A luz pela fresta

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(Foto: Pixabay)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Atenção: fica até o fim desse texto, que eu prometo que não será burocrático. Acredita, segura na mão de Deus e vai!

Comecemos com uma confissão: quando vi a nova NR-1 entrar em vigor, minha primeira reação foi a mesma de muitos empresários brasileiros: mais uma obrigação. Mais uma transferência de responsabilidade. Mais um custo imposto a quem já carrega nas costas uma carga tributária absurda, uma legislação trabalhista sufocante e um Estado que cobra muito, entrega pouco e ainda quer ensinar o setor privado a cuidar de gente, terceirizando obrigações que lhe cabiam.

A norma agora exige que as empresas incluam os chamados riscos psicossociais na gestão de saúde e segurança do trabalho. Na prática, isso significa identificar, avaliar e controlar fatores que possam afetar a saúde mental dos colaboradores: estresse, assédio, sobrecarga, burnout, organização do trabalho, clima interno.

É claro que saúde mental importa. O ponto é outro. Empresa não é pai, não é mãe, não é terapeuta, não é igreja, não é Estado. Empresa existe para produzir, gerar lucro, empregar, inovar, pagar impostos, movimentar a economia. Consiste no setor produtivo, aquele que gera renda e mantém a sociedade (afinal, é quem paga os tributos…). Mesmo assim, agora passou a ser responsável pela saúde mental de quem opta por estar ali e auferir renda. Como diz minha comadre e advogada Agnes: se antes as pessoas levavam os problemas do trabalho para casa, hoje levam os problemas de casa para o trabalho. E, de repente, tudo vira responsabilidade do empregador.

Se o Estado está tão preocupado com o bem-estar da população, que arque com os custos dessa política pública. Que fortaleça a saúde básica, reduza impostos, melhore a educação, cuide das famílias, combata a violência, trate dependência química, ofereça atendimento psicológico real. Mas não. Como quase sempre, o governo cria a obrigação, terceiriza o ônus e chama isso de avanço.

Foi exatamente com essa indignação que eu estava quando algo me aconteceu esta semana.

Fui convidada para assistir a uma palestra do psicoterapeuta e especialista em educação Leo Fraiman, hoje um fenômeno também nas redes sociais. A palestra era para a Goulart & Lamb Advogados e tinha como tema: “A ciência da felicidade e da alta performance: obrigações e oportunidades da NR-1”.

E ali me deu um estalo.

Talvez, sem perceber, o Estado tenha aberto uma porta que nós mesmos não estávamos conseguindo abrir. Obrigada, Senhor Estado. Vocês nos deram a faca e o queijo para transformar a nossa sociedade (a picanha ainda não veio, aliás).

Veja: originalmente, eu sou advogada. Advoguei por 15 anos. Vivi, como tantas pessoas daquele auditório, dentro de uma lógica muito racional, muito técnica, muito material. Naquela época, eu era praticamente alheia ao poder da espiritualidade, à força dos pensamentos, aos estudos da neurociência, às descobertas da epigenética, à importância do sentido.

Só que isso muda tudo.

Foi justamente quando, apesar de parecer que tudo estava dando certo, eu me vi absolutamente sem sentido, que comecei a buscar respostas. Não por acaso, sou Mestre em Memória Social e Bens Culturais e pós-graduada em Espiritualidade, Carreira e Propósito. Mais do que títulos, porém, carrego pelo menos dez anos de leituras constantes sobre esses temas: estoicismo, religiosidade, física quântica, ho’oponopono — cujo mantra tenho tatuado —, fisiologia da felicidade, neurociência, propósito, virtude, fé.

E quanto mais a gente estuda, mais percebe que tudo são variações sobre o mesmo tema.

Seja grato. Vigie seus pensamentos. Visualize a vida que deseja construir. Aja com virtude. Ame. Sirva. Faça a sua parte, mas não se apegue desesperadamente aos resultados. Entregue. Tenha fé.

Simples assim. E, ao mesmo tempo, dificílimo para uma humanidade tão materialista, tão ansiosa, tão pequena em seus desejos e tão frequentemente afastada do essencial.

Vivemos uma guerra espiritual. O Brasil vive uma guerra espiritual, eu não tenho dúvida alguma. E será através da força dos bons que superaremos esse momento sombrio pelo qual passamos.

E foi com meu atual livro em mãos, *Como se tornar sobrenatural*, que a ficha caiu: talvez essa obrigação burocrática possa ser transformada em uma oportunidade extraordinária! Nós, que acreditamos no bem, na liberdade, na responsabilidade individual, na iniciativa privada e na força da sociedade civil, podemos usar essa imposição legal para levar às empresas uma conversa que, até pouco tempo atrás, parecia restrita a retiros, igrejas, consultórios ou livros de desenvolvimento pessoal. Temas que muitos ainda veem como místicos demais, abstratos demais, desnecessários demais. Só que não.

Agora, por vias tortas, a saúde mental entrou na pauta corporativa. A grande virada está justamente aí: não permitir que a NR-1 se transforme em mais uma cartilha estatal de controle, culpa e burocracia. Transformá-la em cultura. Em consciência. Em formação humana.

Se for possível fazer algo de bom com mais um encargo estatal imposto, que seja isso: agarrar essa oportunidade com todas as forças e estimular o maior número de empresas a oportunizar, sim, um conhecimento mais antigo que o tempo, e que poderá gerar uma transformação tão profunda na sociedade que, em certo ponto, não nos permitirá mais aceitar a pequenez de certos espíritos que dominam as massas por aqui.

Pensem nisso, De verdade. No fim das contas, quem muda o mundo não é o Estado. Quem muda o mundo são pessoas. Famílias. Comunidades. Empresas. Líderes. Educadores. Gente que decide fazer melhor, mesmo quando a obrigação nasceu torta.

A NR-1 pode ter vindo como mais um peso. Mas talvez, nas mãos certas, ela vire uma fresta.

E, às vezes, é por uma fresta que a luz entra. Assim já é.

Instagram: @ali.klemt

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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