Quarta-feira, 24 de junho de 2026
Por Ali Klemt | 23 de junho de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
A Copa nos ensina algo que esquecemos no dia a dia: pertencer também é vencer. E acho que, por isso, mexe tanto com as pessoas. Afinal, no fundo, não se trata de futebol. É sobre pertencimento.
Vivemos uma época em que as pessoas estão cada vez mais conectadas e, paradoxalmente, cada vez mais sozinhas. Temos acesso instantâneo ao mundo inteiro, mas muitas vezes não sabemos mais onde realmente nos encaixamos. Perdemos comunidades, tradições, referências e até a capacidade de nos reconhecermos como parte de um todo.
E é curioso perceber que, de quatro em quatro anos, um evento esportivo consegue fazer o que tantas instituições já não conseguem: reunir pessoas em torno de uma identidade comum.
Por isso, exatamente por isso, existe uma vitória que não aparece na tabela de classificação. Ela não dá pontos, não garante vaga nas oitavas, não enche estádio. Mas é, talvez, a única vitória que realmente importa.
Histórias se desenrolam e nos encantam, trazendo a esperança de que ainda somos, enfim, humanos.
A que mais me tocou aconteceu no Estádio Azteca, quando um menino uzbeque chorava porque seu país, estreante absoluto em Mundiais, acabava de sofrer um gol da Colômbia. Em vez de comemorar sozinhos, torcedores colombianos se viraram para consolá-lo. Rivais em campo, humanos nas arquibancadas. Foi assim, num gesto pequeno e gratuito, que a Copa começou a me lembrar do que realmente nos sustenta como espécie: não é a vitória. É cuidar do outro. É ser empático. É saber sentir a dor que nos é comum — e tentar amenizá-la.
A identificação também foi tocante em relação ao goleiro cabo-verdiano conhecido como Vozinha. Criado pelos avós na ilha de São Vicente enquanto os pais trabalhavam para sustentar a casa, ele carregou consigo, no próprio apelido, a lembrança de quem o formou. Aos 40 anos, segurou o empate contra a Espanha na estreia histórica de Cabo Verde — a primeira Copa do país em toda a sua existência. No meio da transmissão, o apresentador Casimiro pediu ao público que seguisse o goleiro no Instagram. Em poucas horas, Vozinha saltou de 50 mil para mais de 7 milhões de seguidores — mais do que o próprio Casimiro. Uma multidão de estranhos decidiu, coletivamente, fazer um homem se sentir visto. Finalmente.
E há a superação crua de Curaçao: depois de levar 7 a 1 da Alemanha — nós sabemos o quanto dói —, a menor seleção da história do torneio conquistou seu primeiro ponto numa Copa, segurando o empate contra o Equador graças a 15 defesas de Eloy Room, goleiro de 37 anos que atua num time que sequer disputa a principal liga dos Estados Unidos. Um ponto. Para nós, acostumados a pentacampeonatos, pode parecer pouco. Para Curaçao, foi história. A lição? Vibremos com as nossas próprias conquistas, não apenas em comparação aos outros.
A mesma força moveu os torcedores noruegueses que, depois de 28 anos longe das Copas, transformaram a arquibancada do Gillette Stadium numa embarcação viking, remando em uníssono e repetindo “Ro! Ro! Ro!” — até o gesto chegar ao Parlamento da Noruega, onde deputados de partidos opostos largaram a política por um instante para remar juntos. Identidade não é discurso. É corpo, é repetição, é memória coletiva sendo reencenada em praça pública.
Os ingleses fizeram o mesmo à sua maneira. Depois de vencer a Croácia em Dallas, transformaram o estádio inteiro num coral entoando “Wonderwall”, do Oasis — uma música de 1995 que segue sendo, três décadas depois, o hino espontâneo de celebração de um povo. Harry Kane disse que aquele foi um de seus momentos favoritos vestindo a camisa da seleção. Não o gol. O canto. As vozes, coletivamente, entoando o mesmo som.
E falando em som: o nosso hino foi apontado pelo New York Times como o mais bonito entre os das 48 seleções da Copa. O jornal destacou a introdução orquestral e uma letra que fala de amor e esperança, não de guerra. Há quase duzentos anos cantamos essas palavras antes de cada jogo. Muitas vezes às lágrimas. Porque um hino não é apenas uma sequência de acordes reunidos. É a trilha sonora de um povo.
E este ponto é o que mais me toca. Todos nós queremos fazer parte de algo maior. Porque, como dizia Raul Seixas, “sonho que se sonha junto é realidade”.
A ciência já demonstrou aquilo que a intuição humana conhece há milênios: pertencer não é um luxo emocional. É uma necessidade. Faz parte da nossa própria sobrevivência. Durante quase toda a história da humanidade, quem não pertencia a um grupo dificilmente sobrevivia sozinho. Por isso, até hoje, a rejeição dói. E dói de verdade.
Talvez seja também por isso que uma arquibancada cantando em uníssono, um país inteiro emocionado diante do próprio hino ou milhões de pessoas vibrando pela história de um desconhecido despertem algo tão profundo dentro de nós. Não estamos apenas assistindo a um jogo. Estamos reconhecendo algo essencial da nossa natureza.
A Copa não resolve nada do que está quebrado no mundo. Mas ela nos devolve, por um mês, a prova de que ainda sabemos torcer juntos, chorar pelo estranho, cantar sem entender o idioma de quem está ao nosso lado.
Se conseguimos isso numa arquibancada, talvez consigamos também fora dela.
A verdade é que, no fundo, todos buscamos a mesma coisa: amar e ser amados. Fazer parte de algo maior. Sentir que a nossa existência importa para alguém.
Justamente por isso um estádio lotado, um hino cantado a plenos pulmões ou um menino chorando por sua seleção consigam nos emocionar tanto. Eles nos lembram de uma verdade simples, antiga e profundamente humana: ninguém nasceu para caminhar sozinho…

* Ali Klemt (Instagram: @ali.klemt)
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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