Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 30 de julho de 2020
Depois de uma jornada que começou nesta quinta-feira (30), às 8h50min (horário de Brasília-DF), e só deve terminar em 18 de fevereiro de 2021, o veículo Perseverance, da Nasa, estará pertinho de Marte. O lançamento do foguete Atlas-V, no Cabo Canaveral, na Flórida (EUA), foi um sucesso.
Agora o Perseverance viajará pelo espaço e enfrentará outros desafios complexos, inclusive sua manobra mais arriscada: a travessia da atmosfera e o pouso no planeta vermelho. O processo de pouso durará sete minutos.
“Em sete minutos, a velocidade precisa baixar de 28 mil para zero, de uma forma controlada. Essa operação começa a mais ou menos 100 quilômetros da superfície, com a entrada na atmosfera, quando o veículo começa a sentir o atrito. O ar é super rarefeito mas, mesmo assim, vira uma bola de fogo na entrada da atmosfera”, explica o cientista brasileiro Ivair Gontijo, do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa (JPL, na sigla em inglês), integrante da missão Mars 2020.
Mais de 80% da velocidade do Perseverance é perdida nesse momento. É quando o paraquedas supersônico abre.
“Ele é enorme, com 21 metros de diâmetro. A velocidade diminui muito. Mas, como estamos em Marte, o ar é muito fino, e o paraquedas não segura o veículo por muito tempo. Ele vai murchar”, diz Gontijo.
Justamente por isso, os engenheiros da Nasa tiveram que bolar um sistema para separar o veículo do paraquedas antes do impacto e permitir um pouso seguro. O risco é espatifar a nave contra o solo de Marte. Parece difícil, e é.
A tecnologia singular que a Nasa aprimora há décadas está longe de ser o único detalhe complexo da missão. A Perseverance é o mais moderno veículo interplanetário já desenvolvido. Os planos traçados por seus construtores, há quase uma década, incluem a busca pelos vestígios de um passado com vida microbiana em Marte, em uma cratera profunda, batizada de Jezero.
Ela tem as linhas de um lago bem desenhadas, e sinalizações do delta de um rio que correu por lá em algum momento do passado distante. Mas não é só.
“Estaremos, então, preparando o caminho para os humanos”, ressalta Gontijo.
A missão da Nasa também está preparada para produzir oxigênio em solo marciano. Entre seus vários instrumentos científicos, um deles é o MOXIE (Mars Oxygen ISRU Experiment). O experimento pretende transformar CO2 (gás carbônico) da atmosfera rarefeita de Marte em oxigênio, que, um dia, poderá servir a duas funções primordiais para quem deseja fincar raízes no planeta vermelho.
A primeira delas é fornecer de oxigênio para o consumo dos astronautas que cheguem por lá. A outra é suprir naves projetadas para fazer o caminho de volta, de Marte para a Terra, algo que, por ora, ainda não tem data para acontecer.
Essas viagens de retorno coincidem com os interesses da Perseverance. Se tudo der certo, o veículo vai recolher fragmentos de matéria que indiquem a presença de carbono. Eles serão acondicionados em tubos, que serão deixados pelo rover em Marte até que outra missão consiga trazê-los para a Terra, onde atualmente já há farta tecnologia capaz de analisar esse material.
“Estamos demonstrando (como é) a tecnologia de ir para Marte, coletar amostras, trazer de volta para Terra, portanto tratando das viagens de ida e de volta e, ainda, de como produzir oxigênio no planeta. Ou seja, tratando da chegada dos humanos em Marte”, acrescenta Gontijo.
Embora a missão seja farta em ineditismo, não é a primeira vez que a Nasa procura vestígios de vida em Marte. Em 1976, a agência teve esse mesmo propósito com as duas missões Vikings, que levaram sondas ao planeta e cujo resultado foi inconclusivo.
Se há mais de 40 anos o sonho de observar Marte de perto era restrito aos cientistas americanos e russos, que travavam a corrida espacial nos tempos da Guerra Fria, hoje outras nações também almejam o mesmo objetivo — e investem pesado para isso.
Nos últimos dias, a China e os Emirados Árabes Unidos, valendo-se de uma janela na qual Terra e Marte estão mais perto um do outro (a próxima só ocorrerá em 26 meses), lançaram missões que já viajam pelo espaço.
Os chineses, cujo programa se notabiliza pela falta de informações públicas, também querem pousar em Marte, com a missão Tianwen-1, lançada no dia 23 de julho e que, aliás, já enviou imagens para seus controladores. Os objetivos conhecidos são levar uma sonda orbital para fazer a observação de Marte e um rover, que percorrerá o solo marciano.
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