Sexta-feira, 29 de agosto de 2025
Por Redação O Sul | 28 de agosto de 2025
Aquela primeira xícara de café pela manhã serve como um ritual para começar o dia, driblar o sono e ter um gás extra para cumprir suas atividades. Sim, mas o que diz a ciência sobre essa bebida, uma das mais populares do mundo? Como ela afeta a nossa saúde? Beber café é saudável?
A resposta para a última pergunta é sim. As evidências científicas mostram que o café pode fazer parte de uma alimentação saudável e traz benefícios à saúde. Entenda: por muito tempo, o café foi visto como um vilão. Era comum médicos orientarem pacientes, principalmente os com problemas cardíacos, a evitar a bebida.
Isso acontecia porque os primeiros estudos eram feitos, na verdade, com cápsulas de cafeína, explica Bruno Mahler Mioto, médico cardiologista e pesquisador na Unidade Café e Coração do Instituto do Coração (InCor). Os pacientes, submetidos a doses altas de cafeína, tinham alterações na pressão arterial e na frequência cardíaca.
Mas o café não deve ser reduzido à cafeína, que é uma substância estimulante. “O café é rico em antioxidante. Ele tem até mais antioxidante em porcentagem no grão verde do que cafeína”, diz o pesquisador.
Um estudo feito por pesquisadores britânicos e publicado no BMJ (British Medical Journal) em 2017 analisou diferentes desfechos em saúde relacionados à bebida e concluiu que os benefícios superam os riscos.
O consumo moderado (de três a quatro xícaras por dia) foi associado ao menor risco de mortalidade por todas as causas, de doenças cardiovasculares, de diabetes e de alguns tipos de câncer (próstata, endométrio, fígado e pele), bem como de condições neurológicas (doença de Parkinson, de Alzheimer e depressão), metabólicas e hepáticas.
O estudo é relevante pois é uma revisão abrangente (ou guarda-chuva, do inglês “umbrella review”), ou seja, analisa meta-análises existentes, sintetizando evidências de múltiplos estudos. É basicamente uma “revisão das revisões”.
Importante: todos esses benefícios apontados por diferentes estudos são observados no consumo habitual, ou seja, em pessoas que tomam café todos os dias.
Isso porque a maioria das pessoas que tomam todo dia desenvolvem tolerância aos efeitos da cafeína e, assim, passam a aproveitar melhor os benefícios, explica Mioto.
“O consumidor esporádico pode experimentar malefícios como aumento da frequência cardíaca, aumento da vasoconstrição. Como ele não tem tolerância, ao beber café em grande quantidade, pode ser gatilho para algum evento, como um infarto. Então, para falar em benefício, eu tenho que falar em consumo habitual”, afirma o cardiologista.
Qual a margem segura de consumo? Aposto que você vai ficar surpreso com a resposta —eu mesma fiquei. Os maiores benefícios à saúde são observados no consumo de 450 ml a 600 ml de café filtrado por dia.
Isso equivale às três ou quatro xícaras que caracterizam o consumo moderado. Em geral, a quantidade da xícara (“cup”) dos estudos é de 120 ml a 150 ml.
Mas os malefícios mesmo só começam a ser observados partir de 1,2 litro a 1,5 litro de café filtrado por dia, o que mostra que a faixa de consumo é muito segura, diz Mioto.
Há exceções. Veja grupos que devem restringir ou reavaliar o consumo, com a orientação de um médico:
– Gestantes: há riscos de restrição de crescimento do feto, parto prematuro e perda da gravidez.
– Menopausa ou osteoporose: o café pode atrapalhar a absorção de cálcio, o que aumenta o risco de fraturas.
– Problemas gastrointestinais: a cafeína aumenta a secreção de ácido gástrico, podendo causar gastrite, azia e queimações.
– Ansiedade: a cafeína pode exacerbar o quadro, principalmente em pessoas que não desenvolveram tolerância.
E a forma de preparo? A maior parte das evidências científicas consideram o consumo de café filtrado, o coado.
Ele é o método mais popular de consumo no mundo, explica Mioto, e é capaz de reter algumas substâncias que podem aumentar o colesterol, como o cafestol e o kahweol.
O café espresso ainda é pouco estudado. “A gente bebe num volume muito menor, pode ter alguma alteração discreta do perfil lipídico, mas ainda vai continuar tendo uma grande extração de antioxidante que potencialmente vai trazer benefício”, diz o pesquisador.
A torra também faz diferença. Um café excessivamente torrado acaba degradando parte das substâncias antioxidantes e aumentando a concentração de cafeína.
“O que eu sempre faço questão de deixar claro é que hoje a gente tem evidências muito robustas para afirmar que o café faz parte de uma dieta saudável. E não tem embasamento científico algum para proibir ou coibir o consumo, mesmo para pacientes com doenças cardiovasculares”, afirma Mioto. As informações são do jornal Folha de S.Paulo.