Sábado, 05 de Dezembro de 2020

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Lenio Streck Algumas profissões “diferentes” e os “sinais dos tempos”

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Alguns especialistas em redes sociais estão sempre espalhando fake news. (Foto: Reprodução)

Outro dia li um artigo assinado por um analista de assuntos estratégicos. O que seria isso? O que é um assunto estratégico? Há uma especialidade nisso?

Também li entrevista de um Especialista em Estratégia. Na TV, uma entrevista de um Especialista em Riscos. OK. Deve ser algo complexo. Nem me arrisco a discutir. Há também coaching. E o especialista em coaching (deve ser uma categoria acima) e o legal design.

No direito também há especialistas em qualquer coisa. Como é ser “especialista”? Bom, nas universidades, tem-se que a pirâmide se dá do seguinte modo: especialista está na base; subindo, o mestre e, subindo um pouco mais, o doutor. Não faz muito inventou-se uma nova modalidade, o pós-doutor. É alguém que faz estágio em algum centro de excelência e, para tanto, tem de ser doutor em alguma coisa.

Com o tempo, as coisas foram sendo simplificadas. Para ser especialista, tinha-se que, antigamente, frequentar um curso de 360 h, de forma presencial, é claro. Tinha trabalho final chamado de monografia.

Depois o nome “especialista” já foi sendo apropriado até por quem faz um cursinho Valitta, como se dizia antigamente. Tem tantos cursos de especialização que já ninguém sabe. Principalmente agora com tudo on line. Já não se exige trabalho final. Há pouco tempo um bacharel em direito montou um curso de especialização na área da medicina. Foi por aqui no Rio Grande do Sul.

Também os cursos de especialização passaram a valer pontos ou substituir tempo de profissão para fazer concursos públicos. Tem um em cada esquina. Talvez por isso tenhamos tantos especialistas em qualquer coisa.

O mestrado também virou coisa comum. Dissertações de 60 páginas na área das Humanas. Temas quaisquer. Já vi na área do direito dissertação sobre Cheque. Deve ser muito complexo esse tema. As antigas monografias “meio que” se transformaram em dissertações e estas “meio que” viraram teses de doutorado.

Aliás, também o doutorado está virando coisa comum. Faz-se doutorado em alguns lugares fora do Brasil nas férias. Bom, há tese de doutorado na área do direito de 120 páginas. Não digo que não possa haver, mas tirando as folhas iniciais e a lista de bibliografia, não sobram mais de 90. O doutor tem de ser muito bom. Invejo. Confesso.

Há uns 25-30 anos surgiu o pós-doutorado. No início, demorava-se no mínimo 1 ano. Fazia intensa pesquisa e depois publicava. Depois, passando os anos, o tempo foi encurtando. Pós-doc em 3 meses. Cada lugar na Europa… E muita gente sai daqui do Brasil com dinheiro público para isso. O que antes era exigência de centro de excelência já não necessita ser tão excelência, assim. Pode ser senhoria ou até você, se me permitem o trocadilho infame ou o sarcasmo.

E já quase todo mundo é pós-doc. Logo inventarão um Pós-Doutorado Plus ou Ultra ou Hight (esse será mais sofisticado: Hight Pós-Doc).

Isso é coisa do Brasil, é claro. De todo modo, tenho orgulho em dizer que meus “associados” – assim se chama o doutor que faz pós-doc (não existe orientador de pós-doutorado) – fazem um longo percurso para receberem o certificado na Unisinos, centro de excelência certificado pela CAPES com a nota mais alta do sistema. Eles publicam comigo, ministram aulas, participam de debates. São, mesmo, associados. Pesquisadores associados.

Agora, voltando… há também o especialista em harmonização de vinhos. E o especialista em redes sociais. Pois é. Conheço alguns deles. Estão sempre espalhando fake news…! Especialistas! Logo farão mestrado. E doutorado. E pós-doc. E Hight pós-doc.

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