Domingo, 29 de Novembro de 2020

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Lenio Streck A campanha política abre uma caixa de pandora

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(John William Waterhouse/Domínio Público)

Pandora rima com pachorra. Não, mas podia. O que é pachorra? Tem vários significados. Prefiro “paciência”. Ou “saco”.

Pois tive a pachorra para ver a abertura da caixa de pandora da campanha eleitoral. Fiquei impressionado com o grau zero de sentido nos discursos. Grau zero: é como um niilismo. Não há fundamento. Mais ou menos como o exemplo clássico de niilismo do personagem de Dostoievski, que mata a dona da pensão e diz: eu cometi um gesto extraordinário.

Não há passado. Só há presente. O futuro? É apenas algo que pode advir do niilismo do presente.

Isso é assim em todas as capitais. Nem imagino os demais municípios. Donos de funerárias e de casas de prostituição e até mesmo trabalhadoras do sexo (sic) fazem propaganda eleitoral com trocadilhos de seus afazeres. Bom, se eles fazem assim, permitem-nos fazer pequenas “zoações”. Falei zoações e não “doações” (selo LLS de ironia).

Por que o folclore sempre acaba ultrapassando aquilo que deveria ser o cerne das preocupações dos eleitores? A resposta é empírica: tiriricações e tiriricamentos. Na última eleição proliferaram também as profissões à frente dos nomes, isto é, as pessoas incorporaram aos nomes aquilo que fazem: Cabo Júlio, Soldado Fernando, Capitão Careca, Tenente Bozó, Delegado Valdir e quejandos. Não, quejandos não é sobrenome. Nem nome. Vote no Dr. Quejando… Não, não dá. Dr. Quejando não dá.

Fico pensando… Isso só ocorre no Brasil. Goleiro Fulano, Centroavante Cicrano, Bombeiro Waldemar, Tenente Andressa. Dessa leva saíram no mínimo três governadores. E deputados. E senadores.

Isso sem considerar os nomes que incorporaram o Naro ou o Bolso de Bolsonaro. As variações são inúmeras, bem perto da gente.

Na campanha para prefeito, vejo um candidato dizendo que quer se eleger para cuidar dos animais. Legal. Tenho um cachorro. Que não vota. Pena.

Outro era comunista. Elegeu-se e depois… já trocou duas ou três vezes de partido. Do comunismo ao neopentecostalismo… e assim a nave vai. Aleluia.

Gosto também da disputa pela direita. Do mesmo modo que o grande filósofo contemporâneo Mountain Lion, da Disney University, campus III, candidatos anunciam que a “saída é pela direita”. Faltou só a onomatopeia que se ouvia quando Mountain Lion fugia pela direita quando o dono das galinhas vinha com a espingarda, atirando a esmo. Sorte que o personagem (quem não lembra?) sempre escapava.

Só que ele não disputava com outros leões acerca de quem saia mais pela direita. Antigamente a esquerda dizia: eu represento a verdadeira esquerda. Passou o tempo e se tem: eu sou mais de direita que o candidato fulano. E o candidato fulano responde: é, até pode ser, mas o meu vice é da extremíssima direita. Não usa o pé esquerdo nem para subir no ônibus. Há quem diga (não no RS, por aqui não tem disso…): sou de direita, branco e hétero. Que tal?

Gosto também, nas propagandas, a troca do tu por você e vice-versa. E lá vem o outro colocar um “s” na segunda pessoa, tipo “tu não fizestes as obras que prometeu” ou “tu gastou demais, viu”? Ah, OK, é preciosismo. Mas, já que é gravado, um teleprompter resolveria. Eu serei seu prefeito…Não, eu serei teu prefeito…Serei, na verdade, vosso prefeito. Bom, depende das palavras seguintes…

Eleitorxs, diria um candidato a vereador, entrando na onda do “x” em vez de “o” ou “a”. Já dizem que o TSE não vai mais falar em eleição para vereador ou deputado. Vai falar em eleição para vereadorxs ou deputadxs… Prefeitx. Tudo muito engraçado. Pelo menos para mim. Permito-me ser politicamente incorretx! Ups. Isso pega. Vi um twitter de um professor: Feliz dix dx Professxr. Não sabia que “dia” tinha esse negócio de masculinx ou femininx. Enfim…

Votem em mim!

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