Terça-feira, 19 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 16 de junho de 2019
Quando o ministro da Justiça e Segurança, Sérgio Moro, chegou ao seu gabinete na segunda-feira da semana passada, dia seguinte à divulgação de mensagens trocadas entre ele e o procurador Deltan Dallagnol, estava com o semblante preocupado. Moro não é dado a grandes sorrisos, mas tampouco é comum vê-lo tenso, como estava na ocasião. Não só a exposição de sua privacidade o preocupava, mas outro problema suscitou apreensão em seu entorno: até aquele momento, o presidente Jair Bolsonaro não havia feito gesto público de apoio. Moro enfrentava o papel de vidraça sozinho.
A partir daí, em menos de 24 horas, o ex-juiz da Operação Lava-Jato que, até poucos dias atrás, tinha popularidade superior à do presidente, passou de quadro técnico a ministro político. Ao receber aceno de Bolsonaro, Moro andou de barco para as lentes dos fotógrafos, passou no teste do estádio de futebol e terminará sua peregrinação no programa do Ratinho, no SBT, onde seu chefe também compareceu quando quis defender a reforma da Previdência para a população.
No papel de ministro mais popular do governo, o ex-juiz parecia fora do alcance dos críticos. Agora se transformou em alvo, como um político comum. Na última terça-feira, em meio ao batalhão de repórteres e fotógrafos que acompanhava sua chega ao Senado, um manifestante disparou: “Qual é o seu partido? Juiz corrupto!”.
O grito reflete o clima de animosidade que cresceu em relação a Moro desde domingo passado, quando o site Intercept divulgou trechos de conversas em que ele orienta Dallagnol a incluir uma testemunha em um dos processos contra o ex-presidente Lula. Ao falar com auxiliares, Moro minimizou a importância das mensagens. As conversas estariam dentro de um determinado padrão de conduta entre procuradores e juízes, na avaliação do ministro.
Nas primeiras horas após a divulgação das conversas, Bolsonaro e os ministros do Palácio do Planalto entraram em compasso de espera. Moro teria se sentido entregue às feras. O clima só começou a mudar na terça-feira. Depois de uma conversa no Palácio da Alvorada, Bolsonaro levou Moro de lancha até uma solenidade no Grupamento de Fuzileiros Navais.
O ato foi interpretado como o primeiro gesto de apoio do presidente. No dia seguinte, enquanto crescia a onda de críticas, Bolsonaro chamou Moro para um almoço no Alvorada e, depois, o convidou para assistirem juntos ao jogo do Flamengo contra o CSA de Alagoas, no estádio Mané Garrincha, em Brasília. A ideia foi do próprio presidente, para comprovar que a popularidade de Moro ainda passaria no chamado teste do estádio.
No intuito de blindar seu ministro, Bolsonaro orientou auxiliares que não comentassem o conteúdo das mensagens e nem possíveis novas conversas. Na sexta-feira, sugeriu que Moro o acompanhasse na abertura da Copa América, em São Paulo. Mas o ministro não quis.
Hackers
Em uma tentativa de estancar a crise, Moro seguiu conselho do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e marcou para a próxima quarta-feira (19) uma ida à CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Casa para dar explicações sobre as mensagens trocadas com Dallagnol. Ele também tomou a iniciativa de comparecer na CCJ da Câmara no dia 26.
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