Sábado, 06 de Março de 2021

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Edson Bündchen As algemas do orgulho

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No raiar do século XVIII, alguns monarcas buscavam disseminar ideias iluministas, a despeito de paradoxalmente desfrutarem de poderes absolutistas, agindo como déspotas esclarecidos. Hoje, o advento da pandemia do coronavírus revela uma situação inversa, na qual alguns governantes, mesmo não detendo poderes à Luiz XIV, graças em parte às luzes daquele rico período histórico, abdicam da razão e abraçam teses que ofendem a ciência e contrariam o bom senso. Curiosamente, muitos desses líderes enfrentam agora um dilema. Ao permanecerem afrontando a realidade e desafiando a lógica, arriscam a própria reputação e seu capital político. Mudar a postura e adotar um discurso sensato, não significa somente enfrentar resistências junto aos apoiadores mais extremistas, como também impõe engolir em seco o orgulho, uma concessão difícil de fazer, pois afeta a vaidade e a autoestima, e aí reside a maior dificuldade para que avancemos na construção do necessário acordo que permita ao País, já não sem tempo, caminhar unido na campanha de vacinação contra a Covid-19.

Muitas pessoas ficam amarradas a vida inteira a certas opiniões, especialmente se, na construção dessas convicções, houve esforço e comprometimento. De fato, parece pouco provável que um aluno de doutorado, após longos anos de estudos laboriosos e extenuantes, e diante de uma banca mais austera, resolva admitir que a sua tese não tem fundamento. Também improvável, mas altamente desejável, seria alguém que debochasse da pandemia e desconfiasse da vacina, pudesse agora se reposicionar e assumir um novo papel. Essa atitude de crítica automutiladora, entretanto, é incomum. Tendemos a abusar do “viés da atribuição”, heurística na qual somos pouco modestos em relação aos nossos méritos e bastante indulgentes aos fracassos que experimentamos. Contudo, há casos nos quais o direito à mudança de pontos de vista precisa convergir em desfavor do indivíduo, quando a coletividade é que está em jogo, quando a vida das pessoas corre riscos. A isso poderíamos chamar, em outras circunstâncias, de grandeza de espírito, mas em consideração ao atual contexto, com muita boa vontade, seria apenas um gesto de responsabilidade.

As algemas do orgulho estão afetando até mesmo parte de todos aqueles que diariamente se digladiam nas redes sociais, mas não apenas circunscritas ao campo das vaidades. Há falta de humildade também, há ódio, ignorância, rancor, e uma preocupante tendência à intolerância, cuja escalada contamina atualmente parcela importante do debate. Argumentos baseados em ciência são afrontados com espantosa naturalidade; teses robustas e fruto de trabalhos consagrados por instituições de renome são desmentidas pelas certezas dos “novos cientistas do WhatsApp”. Mentiras e inversões dos fatos e das narrativas fariam corar Schopenhauer e suas orientações sobre “como vencer um debate sem ter razão”. Esse conjunto de inverdades que assola as mídias sociais compromete a boa informação. Milhares de brasileiros são levados a acreditar em teorias conspiratórias sem justificativas, medo infundado das vacinas, crença em medicamentos sem comprovação científica, descrença nas autoridades com discursos coerentes e aderência a gestos populistas e demagogos.

Estamos caminhando a passos largos para uma indesejável e ameaçadora divisão sectária, com a população sendo perigosamente cindida por discursos obscurantistas e irresponsáveis. Essa cegueira indômita impele parte dos cidadãos a não mais respeitar as regras de isolamento, tornando a pandemia um jogo macabro que condena milhares de pessoas à morte. O caso vivido por Manaus dá a dimensão da grandeza trágica do problema. É preciso uma improtelável reconciliação nacional. Assim como a ciência é melhor que os cientistas, a política também é melhor que os políticos, um consenso em favor da vida certamente também é superior a qualquer opinião individual. As algemas do orgulho precisam ser superadas em favor do Brasil!

 

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