Sexta-feira, 14 de Agosto de 2020

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Edson Bündchen As palavras importam!

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Em tempos de debates acalorados na mídia e de aguda polarização política, com trocas de ofensas e uso de linguagem inadequada, sempre é bom refletir sobre a melhor forma de produzirmos diálogos autênticos e enriquecedores, bem como buscar compreender o fenômeno, para que prevaleça a empatia e uma visão mais generosa sobre o outro, condições essenciais para um diálogo construtivo.

Esse tema adquire maior relevância a partir das discussões entre liberdade de expressão e as chamadas “fake news”, muitas delas eivadas de preconceito, inverdades e uso frequente de termos agressivos. É necessário moderar e humanizar os diálogos, mas como, se na gênese do problema encontramos sementes crescentes de intolerância?

O professor Mário Sérgio Cortella, provoca-nos com a seguinte pergunta: “você é capaz de corrigir sem ofender e orientar sem humilhar”? Esse oportuno alerta para a prudência, para maior amorosidade na forma como tratamos o outro, é muito mais do que apenas se pressupõe, pois também invoca a reflexão para uma questão de caráter. O que é uma pessoa honrada? Aquela que, entre outras coisas, tem a percepção da piedade, da comiseração e da empatia, em outros termos, aquilo que precisa ser resguardado na convivência. A autenticidade não pode ser justificativa para uma língua ferina ou irresponsável. Eu não devo, assim, em nome da minha autenticidade, dizer tudo o que penso. Eu não devo, em nome da minha autenticidade, desqualificar alguém apenas porque quero ser transparente, embora possa querer ou poder assim agir. Domar a besta que existe em nós, antes de ser função do Estado, deve ser fruto de autorreflexão.

A meu ver, na raiz de toda a comunicação raivosa e mal elaborada, na qual, com a asséptica distância das mídias sociais, o emissor destila seu ódio e frustrações num receptor muitas vezes indefeso, encontram-se seres humanos desprovidos de conhecimento, vítimas de sua própria ignorância e do seu condicionamento psicossocial. Nesse terreno, a intolerância não encontra freios e a comunicação deixa de ser um processo interativo para perecer na visão autocentrada do emissor. Trava-se, dessa forma, um diálogo de surdos.

O que estaria, ainda, por trás de um boquirroto grosseiro e inconveniente? Ao explorar a caverna de Platão, numa alusão às prisões psíquicas representadas por certas formas de comportamento, é possível compreender alguns porquês do uso de linguagem tosca, chula ou inadequada por parte de cidadãos, políticos ou gestores com influência social. A agressividade verbal, além da origem cultural e cognitiva, tem também um fundo psicológico, e essa condição a priori, influencia e formata a intensidade, a modulação e o conteúdo da fala. Há, de todo modo, uma mensagem subliminar na intencionalidade para além do que é dito, transformando as palavras em antessalas dos atos. Por isso é tão importante observar, valorizar e estudar os discursos. Eles falam muito sobre nós.

O contraponto ao discurso mal dito, mal falado ou insuficiente, por outro lado, é a palavra bem colocada, a ênfase naquilo que é relevante, a sensibilidade no tom, na adequação e no sentido de cada uma das palavras proferidas. Assim como existe sempre uma palavra para cada momento, existem também imensas possibilidades para que as mensagens não resvalem para o discurso ofensivo a partir de um reposicionamento pessoal. Reconhecer-se como ator de sua própria narrativa, incorporando elementos técnicos e emocionais a um discurso mais humanizado, não apenas projeta diálogos mais fecundos, como especialmente denota uma indispensável e urgente maior sensibilidade ao próximo. Num futuro que se prenuncia mais colaborativo e integrado, isso pode fazer toda a diferença.

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