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Mundo Austrália se dá conta de que meta da “covid zero” sem vacinação não se sustenta

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As ordens de permanecer em casa serão suspensas em Sydney. (Foto: Reprodução)

Três dias após o surgimento de um caso de covid-19 em Sydney, 34 amigos se reuniram para uma festa de aniversário. Em meio a comilança e risadas, havia uma ameaça oculta: um dos convidados, sem saber, cruzou o caminho daquele caso, um motorista de aeroporto que havia contraído a variante Delta, mais contagiosa, de uma tripulação americana.

Duas semanas depois, 27 pessoas que estavam na festa tiveram resultado positivo para covid-19, incluindo uma criança de 2 anos, além de 14 contatos próximos. As sete pessoas que não foram infectadas haviam sido vacinadas.

Essa festa de aniversário é o retrato do imenso desafio que a Austrália enfrenta agora. Como poucos australianos foram imunizados — apenas 7,3% da população receberam as duas doses, e 25%, uma — a variante Delta se espalhou.

Para a Austrália e todas as outras nações que buscam uma abordagem chamada de “covid zero”, como a Nova Zelândia, a festa de aniversário no Oeste de Sydney equivale a um aviso: sem uma campanha de vacinação em massa, essa política não pode resistir sem restrições cada vez mais dolorosas.

“Este é o começo do fim da ‘covid zero”, disse Catherine Bennett, diretora de epidemiologia da Universidade Deakin em Melbourne. “Podemos conseguir controlar o surto desta vez, mas vai ser cada vez mais difícil.”

O país cometeu o erro de apostar praticamente todas as suas fichas em duas opções de vacina: a da AstraZeneca e uma proposta pela Universidade de Queensland, disse Richard Holden, economista da Escola de Negócios da Universidade de Nova Gales do Sul, onde fica Sydney. A última falhou nas primeiras tentativas; a primeira foi vítima de um debate nacional sobre se o risco de coágulos sanguíneos, que é extremamente baixo, deve impedir que seja usada por qualquer pessoa com menos de 60 anos.

Como resultado, o país está atrasado na obtenção das vacinas da Pfizer e Moderna, além de outros fabricantes, e no planejamento de sua campanha de vacinação.

A mutação Delta já se espalhou de Sydney para toda a Austrália, transportada em voos e por pessoas que visitam escolas, hospitais e cabeleireiros. Metade dos 25 milhões de habitantes do país recebeu ordens de ficar em casa, já que as infecções aumentam, com uma média móvel de 40 novos casos por dia — pouco se comparado a muitos países, mas quase 10 vezes mais do que no início de maio. As fronteiras dos Estados estão fechadas e a exasperação — outra quarentena 16 meses após o início da pandemia? — está se intensificando.

É uma mudança repentina em um país que passou a maior parte do ano passado comemorando uma conquista notável. Com fronteiras fechadas, testes generalizados e rastreamento eficiente, a Austrália reprimiu todos os surtos anteriores. Na Austrália, ninguém morreu de covid-19 neste ano. As restrições foram levantadas e estádios, restaurantes, salas de aula e teatros voltaram a encher, ainda que não a plena capacidade.

Essa experiência de normalidade — diminuída apenas pela falta de viagens ao exterior, ordens ocasionais de uso de máscaras e quarentenas rápidas — é o que os políticos australianos, do primeiro-ministro Scott Morrison às autoridades locais, estão tão desesperados para defender. Para eles, manter a “covid zero”, custe o que custar, continua sendo uma política vencedora.

Na última sexta-feira (2), a Austrália anunciou que as poucas milhares de chegadas internacionais que foram permitidas semanalmente seriam reduzidas pela metade. O Estado de Nova Gales do Sul, que evitou uma quarentena total durante os surtos anteriores, impôs o confinamento até 9 de julho.

O desafio dos próximos meses, para a Austrália e muitos outros países, envolve garantir que a grande maioria das pessoas seja vacinada. Quando isso acontecer, dizem os epidemiologistas, as mortes, não as infecções, devem se tornar a medida para a política de saúde.

O desafio dos próximos meses, para a Austrália e muitos outros países, envolve garantir que a grande maioria das pessoas seja vacinada. Quando isso acontecer, dizem os epidemiologistas, as mortes, não as infecções, devem se tornar a medida para a política de saúde.

“Antigamente, a covid matava uma pessoa para cada 100 ou 200 casos”, disse Peter Collignon, médico e microbiologista da Universidade Nacional Australiana. “Assim que você vacinar pessoas suficientes, o número cai para 1 em mil.”

Até o premier Morrisson, que demorou a assumir a responsabilidade pela lentidão da vacinação, reconheceu que os australianos precisariam parar de mirar na política de “covid zero”.

“O gerenciamento da covid-19 deve mudar assim que você passar da pré-vacinação para a pós-vacinação”, disse Morrison, acrescentando que o objetivo final é que “devemos tratá-la como se fosse uma gripe, e isso significa que não haverá quarentenas”.

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