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Edson Bündchen Besta à espreita

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Na Grécia antiga, no início do período clássico, os Eupátridas detinham plenos poderes, criando as leis, executando e julgando, no que hoje seria um regime autoritário nos moldes da Coreia do Norte, mas em contexto histórico completamente diferente, o que torna o regime de Kim Jong-un tão bizarro quanto extemporâneo. As lideranças gregas, diante de grave tensão social reinante à época, optaram por escolher, dentre os seus sete homens mais sábios, aquele que teria a missão de promover as reformas e leis necessárias para a volta da paz e da normalidade. O escolhido, Sólon, 594 a.C, implementou várias mudanças estruturais e de alto impacto, entre elas o fim da escravidão por dívidas, o perdão dos débitos dos escravos, a limitação do tamanho das propriedades e a extinção de privilégios por classe social. Essas mudanças acabaram por prenunciar o surgimento da democracia, que viria a emergir com Clístenes, por volta de 508 a.C, sem blindar, contudo, a sociedade ateniense das recorrentes crises e tensões sociais, comprovadamente um convite a pendores autoritários, conforme Maquiavel, bem mais tarde, viria a confirmar.

Mesmo o passar do tempo e todo o amadurecimento das eternas idas e vindas das formas de governos experimentadas mundo afora, ainda não é possível dizer que estamos livres das ameaças totalitárias. Os vícios, as paixões e os defeitos humanos que atribulavam o caminho dos precursores da democracia na Grécia antiga ainda permanecem muito vivos. Esse continuum tormentoso, temperado por períodos de transformações econômicas, sociais e filosóficas, permite um sobrevoo retrospectivo em busca de pistas que iluminem melhor a nossa compreensão histórica dos eventos. De fato, é manifesto reconhecer que o progresso da sociedade, do iluminismo, das Revoluções Industrial e Francesa, dentre outros, influenciaram de maneira decisiva a moldura contemporânea, tanto no que se refere à formatação geopolítica do planeta, quanto dos impactos político-sociológicos decorrentes desse desenrolar da história.

Mas não é apenas isso. Hoje, falar em democracia, requer também um novo olhar, especialmente diante do recente paradigma, no qual a instabilidade extrema mexeu com todo o quadro, o que reclama uma permanente interpretação dos elementos e análise da integração dos sistemas sociais. A globalização não tornou apenas o mundo menor, mas afetou profundamente o comportamento das pessoas, além de tecer uma cadeia de integração econômica que torna os diversos interesses difusos e interdependentes, carentes de estabilidade, ao tempo em que convivem, mesmo que a contragosto, com a sempre presente sombra totalitária. Há notável contraste entre o avanço econômico e o anacronismo político. Dessa forma, é quase impossível, atualmente, compreender ou atuar efetivamente no processo de mudança política, sem reconhecer o papel da sociologia e das novas premissas que regem o ecossistema político moderno. Isso, por vezes, tem escapado aos que intentam manejar a ciência política com os mesmos instrumentos da Grécia antiga, ou de Florença, do início do século XVI.

A tentação em encurtar caminhos, solapando preceitos institucionais, além do uso de estratégias antidemocráticas plasmadas no tempo, tem se agravado na vida nacional. Estão sendo recorrentes ataques às instituições, insinuações acerca da não realização das eleições em 2022, e outras ações que afrontam os preceitos mais caros a uma verdadeira democracia. Mesmo se valendo de enredos já conhecidos, os riscos autoritários não devem ser menosprezados pois, conjugados com um alto grau de imaturidade política de parte da população, ignorância ou suscetibilidade a apelos populistas, podem despertar a besta totalitária. Diferente de Atenas, não dispomos dos poderes de Sólon, para fazermos as mudanças que o Brasil requer, mas de um trabalho que se requer orgânico e disciplinado, alinhado aos preceitos constitucionais e longe de qualquer aventura que ameace o futuro de nossa ainda jovem democracia.

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