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Edson Bündchen Mais do que sorte

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Nunca foi exatamente uma tarefa fácil compreender por que as coisas acontecem e o mundo é do jeito que se apresenta. Galileu Galilei teve que se retratar diante dos seus inquisidores, e nem por isso a terra deixou de mover-se em torno do sol. Mas há questões bem menos evidentes do que a movimentação dos astros: o comportamento humano é uma delas. Seus caprichos, pendores e peculiaridades são preditores, porém numa escala muito mais sinuosa e difícil de compreender. Entretanto, o avanço do conhecimento, o acúmulo de experiências, assim como a escalada vertiginosa das novas tecnologias, proporciona a pesquisadores e curiosos acuidade crescente, mas ainda insuficiente para tranquilizar os espíritos mais inquietos, particularmente se o assunto for o amanhã. Essa reflexão robustece ao testemunharmos o desenrolar do enredo conflagrado no plano político nacional, sugerindo ser tanto inapelável quanto indesejável o desfecho prenunciado, a considerar as palavras, atitudes e comportamentos dos atores envolvidos. Em que ponto houve a inflexão? A partir de que momento entramos nesse labirinto polarizado que está tornando irreconciliável a convivência entre contrários? Olhando para trás, seja num plano mais aberto quanto à gênese histórica, seja na observação das narrativas atuais, temos muito a aprender para melhor nos proteger.

As forças da história continuam movendo nossa marcha rumo ao futuro, porém nunca houve tamanha complexidade, instabilidade e riscos envolvidos. Se nos parece exagerado atribuir ao bater de asas de uma borboleta no Brasil um destrutivo furacão no Texas, mais simples é estabelecermos correlações entre fatos menos dispersos e difusos. Institucionalistas, marxistas e especialistas em geopolítica são representantes das muitas escolas que procuraram e ainda procuram, com grande esforço, avaliar o papel do acaso ou de forças históricas mais profundas a nos governar. É bem razoável imaginar que possam existir justificativas para atribuir à luta de classes parte importante no desenrolar da cronologia moderna, assim como é crível que a influência da geografia, das características topográficas, demográficas e climáticas ajudaram a nos trazer até aqui. Por fim, não menos relevantes são as instituições, tipo de governo, eficiência do judiciário e grau de liberdade na conformação da nossa realidade social, política e econômica, além do impacto no próprio delineamento cultural das sociedades.

Não são, contudo, apenas eventos paradigmáticos a mudar a realidade. Há, também, ocorrências isoladas e excepcionais que podem abalar os alicerces sociais e provocar mudanças significativas nos destinos das pessoas, das comunidades e do próprio planeta. A título de especulação, como seria o mundo atual caso o sérvio Gavrilo Princip tivesse errado os tiros que mataram o arquiduque Francisco Ferdinando, em 1914? Não teríamos tido a Primeira Grande Guerra? Os bolcheviques teriam sucesso na Revolução Russa? E Hitler, surgiria sem aquele tormentoso ambiente que antecedeu e fomentou o radicalismo do Terceiro Reich? São perguntas irrespondíveis no imenso oceano do acaso e da miríade de circunstâncias que projetam e conformam a história humana.

É nesse sistema complexo, no qual pequenas variações podem desestabilizar nossas vidas, que é necessário não menosprezar hipóteses contrafactuais, já que estas nos permitem tecer cenários possíveis, tendo como pano de fundo o que chamamos de experiência vivida. Nessa perspectiva, talvez estejamos sendo contemporâneos de algum evento singular, ainda silente, que conjugado às particularidades que o acaso nos legou, possa estar a configurar alguma transformação bastante profunda no destino de todos nós. Entretanto, mesmo um evento extraordinário, como o de Sarajevo, só prosperou devido ao ambiente político altamente inflamado da época. Por isso, é fundamental manter as forças mais poderosas da institucionalidade suficientemente protegidas, até porque, contar com a sorte, não parece ser uma boa alternativa nesses casos.

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