Sexta-feira, 18 de setembro de 2026
Por Edson Bündchen | 17 de setembro de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Durante muito tempo, boa parte da macroeconomia trabalhou com a ideia de um agente representativo. Para compreender o comportamento da economia, imaginava-se uma família média, com determinada renda, consumo e patrimônio. As diferenças existentes dentro da sociedade eram reconhecidas, mas muitas vezes ficavam em segundo plano nos modelos utilizados para explicar inflação, consumo, poupança e crescimento.
Mas isso vem bem mudando, conforme observa o economista Marcello Estevão. Segundo ele, ao discutir a evolução recente da macroeconomia, os modelos passaram a incorporar a premissa de que as pessoas são diferentes e, por isso, reagem de maneira diferente aos mesmos acontecimentos econômicos.
Uma elevação dos juros, por exemplo, não produz os mesmos efeitos sobre uma família endividada e sobre outra que possui aplicações financeiras. Uma inflação maior atinge de maneira diferente quem compromete praticamente toda a renda com alimentação e moradia e quem dispõe de capacidade de poupança. Da mesma forma, uma recessão significa coisas muito diferentes para um trabalhador que depende do salário mensal e para alguém que vive predominantemente de rendimentos do patrimônio.
Somos, é notório, uma sociedade profundamente heterogênea. Em 2025, o rendimento domiciliar per capita médio brasileiro chegou a R$ 2.316. Mas a média esconde enormes diferenças: enquanto no Maranhão foi de R$ 1.219, no Distrito Federal alcançou R$ 4.538. O índice de Gini do rendimento domiciliar per capita ficou em 0,511, revelando que, apesar dos avanços observados em períodos recentes, a desigualdade continua sendo uma característica estrutural do país. Uma mesma política econômica produzindo vários efeitos diferentes simultaneamente.
Quando o Banco Central eleva a taxa de juros para combater a inflação, algumas famílias reduzem imediatamente o consumo porque dependem de crédito. Outras recebem mais rendimentos de suas aplicações financeiras. Empresas endividadas adiam investimentos, enquanto famílias sem acesso ao sistema bancário talvez sintam os efeitos principalmente por meio do emprego e da atividade econômica.
Em 2000, apenas 8,7% da população brasileira tinha 60 anos ou mais. Em 2023, essa proporção já havia chegado a 15,6%. Segundo as projeções do IBGE, em 2070 os idosos poderão representar aproximadamente 37,8% da população. Em poucas décadas, portanto, deixaremos de ser uma sociedade predominantemente jovem para nos tornarmos uma sociedade em que mais de um terço da população estará acima dos 60 anos.
O encontro da desigualdade com o envelhecimento torna o problema ainda mais complexo. O Brasil não terá simplesmente mais idosos. Terá idosos muito diferentes entre si. Alguns chegarão à velhice com patrimônio, previdência complementar e renda financeira. Outros dependerão quase exclusivamente do INSS ou de programas assistenciais. Estudos sobre envelhecimento e desigualdade no Brasil mostram justamente a importância de analisar conjuntamente renda, distribuição de renda, previdência e diferenças de expectativa de vida.
Teremos menos jovens ingressando no mercado de trabalho e mais pessoas permanecendo economicamente ativas por períodos maiores. Empresas precisarão aprender a administrar forças de trabalho multigeracionais. O sistema previdenciário será pressionado pela relação entre contribuintes e beneficiários. E o Estado terá de decidir como distribuir recursos escassos entre educação, saúde, assistência e Previdência.
Há, portanto, uma mudança importante na maneira como deveríamos olhar para a economia brasileira. Durante décadas perguntamos quanto cresce o PIB, qual é a inflação, quanto as famílias consomem ou qual é a renda média da população. Essas perguntas continuam indispensáveis. Mas já não são suficientes.
Precisaremos perguntar também: quem está crescendo? Quem está consumindo? Quem possui patrimônio? Quem está endividado? Quem está envelhecendo, e em quais condições? A nova macroeconomia está redescobrindo algo que as médias são úteis, mas podem esconder mundos completamente diferentes.
(Instagram: @edsonbundchen)
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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