Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 24 de julho de 2017
Quando Andre Oliveira respondeu a um chamado para deixar sua congregação vinculada com a Word of Faith Fellowship (Associação Palavra da Fé) no Brasil e mudar para a igreja mãe na Carolina do Norte, aos 18 anos de idade, seu passaporte e dinheiro foram confiscados pelos líderes da igreja – para proteção, segundo os líderes.
Preso em um país estrangeiro, ele disse que foi forçado a trabalhar 15 horas por dia, geralmente sem remuneração, primeiro limpando casas para a igreja evangélica secretamente e depois trabalhando nas propriedades dos ministros sêniores. Ele conta que qualquer desvio nas regras os colocava sob a ira dos líderes da igreja, variando de espancamentos a humilhações no púlpito.
“Eles nos traficaram para cá. Eles sabiam o que estavam fazendo. Eles precisavam de mão-de-obra, e nós éramos mão-de-obra barata – bom, mão-de-obra gratuita”, diz Oliveira.
Uma investigação da Associated Press revela que a Word of Faith Fellowship usou seus dois ramos da igreja na maior nação da América Latina como sifão de um fluxo contínuo de jovens trabalhadores, que tinham vistos de turistas ou estudantes, para a sua propriedade de 35 acres na zona rural de Spindale.
Segundo as leis dos EUA, os visitantes com visto de turista são proibidos de realizar um trabalho pelo qual as pessoas normalmente seriam remuneradas. As pessoas com visto de estudantes têm permissão para alguns trabalhos, em circunstâncias que não correspondem às que aconteciam na Word of Faith Fellowship, conforme a AP descobriu.
Em pelo menos uma ocasião, os membros antigos alertaram as autoridades. Em 2014, três ex-congregantes disseram a uma procuradora assistente dos EUA que os brasileiros estavam sendo forçados a trabalhar sem remuneração, de acordo com um registro obtido pela AP.
“E eles espancaram os brasileiros?”, Jill Rose, agora procuradora dos EUA em Charlote, perguntou.
“Não há dúvidas”, respondeu um dos congregantes antigos. Os ministros “na maioria das vezes traziam eles para cá para trabalho gratuito”, outro disse.
Embora Rose pudesse ser ouvida prometendo investigação, os membros antigos disseram que ela nunca respondeu quando eles repetidamente tentavam contato com ela.
Rose se recusou a comentar para a AP, citando uma investigação em andamento.
Oliveira, que abandonou a igreja no ano passado, é um dos 16 membros antigos brasileiros que contaram à AP que foram forçados a trabalhar, frequentemente sem remuneração, e foram agredidos física ou verbalmente. A AP também analisou uma série de relatórios policiais e queixas formais apresentadas no Brasil.
“Éramos descartáveis”
“Eles nos mantinham como escravos”, disse Oliveira, pausando às vezes para secar as lágrimas. “Nós éramos descartáveis. Não significávamos nada para eles. Nada. Como podem fazer aquilo com pessoas – declarar seu amor a elas e depois bater nelas em nome de Deus?”
Os brasileiros frequentemente falavam pouco inglês quando chegavam e muitos tiveram seus passaportes apreendidos.
Muitos homens trabalharam no setor de construção; muitas mulheres trabalharam como babás e na escola K-12 da igreja, contaram os membros antigos. Uma ex-congregante do Brasil disse à AP que ela tinha apenas 12 anos quando teve que trabalhar pela primeira vez.
Agentes da imigração nos dois países disseram ser impossível calcular o volume do fluxo de humanos, mas pelo menos várias centenas de jovens brasileiros migraram para a Carolina do Norte nas últimas duas décadas.
Anos de abuso
As revelações de trabalho forçado são as mais recentes de uma investigação em andamento da AP que expõe anos de abuso na Word of Faith Fellowship. Com base em entrevistas exclusivas com 43 membros antigos, documentos e registros secretos, a AP divulgou em fevereiro que os congregantes eram regularmente golpeados, surrados e sufocados para que fossem “purificados” dos pecados ao derrotarem os demônios.
A igreja raramente sofreu sanções desde a fundação em 1979 pela líder da seita, Jane Whaley, uma antiga professora de matemática, e seu marido, Sam. Reportagem anterior da AP descreve como os líderes da igreja ordenaram que os congregantes mentissem às autoridades que investigavam relatos de abuso.
A AP fez tentativas repetidas para obter comentários desta história dos líderes da igreja nos dois países, mas eles não responderam.
Sob a liderança de Jane Whaley, Word of Faith Fellowship cresceu de um punhado de seguidores para cerca de 750 congregantes na Carolina do Norte e um total de quase 2000 membros nas suas igrejas no Brasil e em Gana e suas afiliações na Suécia, Escócia e outros países.
Os membros de todo o mundo visitam a propriedade de Spindale, mas o Brasil é a maior fonte de trabalho estrangeiro, e Whaley e seus principais delegados visitam os postos avançados brasileiros várias vezes ao ano, segundo descobriu a AP. (AG)
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