Quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
Por Redação O Sul | 6 de janeiro de 2026
Ao entrar no Four Seasons Hotel vestindo um terno em uma quarta-feira recente, o fundador de uma startup de inteligência artificial (IA) Nikolas Huebecker parecia um executivo de negócios convencional.
Ter cuidado com aparência parecia a “contracultura” no Vale do Silício, disse ele — o setor é conhecido por seus técnicos desleixados, e não por ternos elegantes. O jovem de 23 anos estava indo para um curso de etiqueta liderado por investidores que orientariam cerca de 40 jovens fundadores sobre como se vestir, iniciar conversas e provar caviar com as mãos — o objetivo é aumentar as chances dos novatos de se tornarem os próximos bilionários da tecnologia.
Os fundadores de empresas de tecnologia tradicionalmente evitavam as normas empresariais enquanto trabalhavam para mudar o status quo, mantendo-se fiéis aos moletons e jeans mesmo quando os sonhos dos dormitórios se transformavam em corporações bilionárias — vestem ternos apenas quando visitam tribunais ou o Congresso. A aparência desleixada e as habilidades sociais pouco refinadas tornaram-se marcas registradas do empreendedor talentoso e focado em mudar o mundo.
Mas as expectativas sobre a aparência e o comportamento de um fundador de empresa de tecnologia, bem como os modelos de sucesso do Vale do Silício, estão mudando à medida que o setor ganha poder e influência.
Os líderes tecnológicos estão no centro das atenções no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, e na Casa Branca do presidente Donald Trump, onde magnatas da indústria, como o CEO da Tesla, Elon Musk, e o investidor David Sacks, czar da IA e criptomoedas de Trump, apareceram vestindo os ternos escuros das elites empresariais e governamentais convencionais.
À medida que o impulso da IA do Vale do Silício ameaça mudar a vida e o trabalho em todo os EUA, os fundadores estão sendo aconselhados a equilibrar a capacidade técnica com habilidades interpessoais, além de exibirem uma aparência suave. Uma pesquisa realizada em junho pelo Pew Research Center descobriu que 50% dos americanos estão mais preocupados do que entusiasmados com o aumento do uso da IA na vida cotidiana, contra 37% em 2021.
Os empregadores e investidores da área de tecnologia “querem o pacote completo”, disse Caroline Simard, reitora do campus da Northeastern University no Vale do Silício. Isso significa pessoas que tenham habilidades técnicas e que “sejam capazes de colaborar, sejam bons comunicadores… tenham pensamento crítico”, disse ela.
Os líderes tecnológicos em ascensão estão cada vez mais preocupados com a forma como se apresentam. Victoria Hitchcock, consultora de estilo da área da baía de São Francisco, que ajudou clientes do setor tecnológico que visitaram a Casa Branca neste ano, afirmou que as pessoas do setor agora solicitam “grandes mudanças em toda a sua personalidade”. Em seus 15 anos trabalhando com clientes do setor de tecnologia, ela frequentemente teve que indicar aos fundadores homens áreas simples para melhorar, como cuidados pessoais, mas agora eles perguntam proativamente como se livrar das olheiras ou qual é o melhor programa de reposição capilar, disse Hitchcock.
Sam Lessin, um dos três investidores que administravam o que chamavam de “Escola de Etiqueta” em São Francisco, disse aos participantes que um empreendedor desajeitado, mas brilhante, poderia ter tido sucesso há uma década, mas hoje eles precisavam aprimorar suas habilidades sociais para serem eficazes em um palco mais amplo.
“Haverá momentos em que, na margem, isso lhe renderá um investidor extra que dirá: ‘Ok, posso confiar nessa pessoa — ela transmite confiança’”, disse ele, antes de alertar o público, composto principalmente por homens na casa dos 20 anos, que, para muitas pessoas na sociedade, “a tecnologia não é mais divertida e fofa”.
Lessin, ex-colega de Mark Zuckerberg na Universidade de Harvard, que se tornou vice-presidente do Facebook após a empresa adquirir sua startup de compartilhamento de arquivos Drop.io, em 2010, disse que decidiu realizar esta primeira edição do workshop em parte depois de ver fundadores aparecerem para lhe apresentar suas ideias parecendo que tinham saído diretamente da academia e se esquecendo de levar suas xícaras de café para a pia depois.
Vestir-se de maneira muito casual ou abandonar pratos sujos transmite “uma falta de cuidado e respeito pelas pessoas e a expectativa de que outras pessoas vão limpar a sua bagunça”, disse ele. Agora que as inovações em IA estão potencialmente ameaçando os empregos das pessoas, Lessin aconselhou os fundadores reunidos a serem mais humildes e autoconscientes. “Você precisa ser do tipo ‘estou aqui e sou respeitoso’, em vez de ‘estou aqui e sou intencionalmente desrespeitoso’”, disse Lessin.
O workshop começou abordando questões menos delicadas: a aparência e o cheiro dos fundadores. Cada participante recebeu uma sacola com um pente, xampu e condicionador 2 em 1, enxaguante bucal, um rolo adesivo para limpeza de roupas e um cartão de desconto para a Wilkes Bashford, uma boutique local de roupas de luxo.
Representantes da loja apresentaram um desfile de modelos que exibiram looks — para homens e mulheres — adequados para uma grande apresentação, jantar ou brunch com o chefe. Nada de jeans rasgados ou desbotados aqui — e o único colete era um modelo de camurça de US$ 5 mil do estilista italiano Brunello Cucinelli, favorito dos magnatas da tecnologia, e não um casaco acolchoado da Patagonia de US$ 200.
Grande parte dos conselhos não tinha relação com o orçamento. É aceitável misturar estampas, disse Jeff Garelick, diretor de lojas da Wilkes Bashford — basta garantir que a estampa da jaqueta seja maior do que o da camisa.
Embora Huebecker e outros participantes do workshop tenham seguido a recomendação do convite de se vestirem com trajes “formais de negócios de São Francisco”, o fundador médio de uma empresa de tecnologia precisa de dicas de guarda-roupa, de acordo com aqueles que aconselham e investem em empresas jovens.
Hitchcock, a estilista da Bay Area, disse que frequentemente recebe ligações de esposas, assistentes executivas e chefes de gabinete pedindo ajuda para um fundador do sexo masculino prestes a entrar em um palco maior, como a venda inicial de ações, um convite para Davos ou para a Casa Branca.
“Tudo isso é novo para eles e acontece muito rápido”, disse Hitchcock em entrevista por telefone. Ela é sincera sobre como alguém pode refinar sua aparência — seja com uma roupa sob medida, um desodorante ou cuidando dos incômodos pelos do nariz ou das orelhas —, tudo com o objetivo de ajudar alguém a “parecer tão inteligente por fora quanto é por dentro”. As informações são do jornal The Washington Post.