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(Foto: Reprodução)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Há países que apostam no conhecimento. Outros apostam em infraestrutura, inovação, educação ou produtividade. O Brasil, ao que tudo indica, decidiu apostar na jogatina desenfreada.
O artigo de Eugênio Bucci, publicado no Estado de S. Paulo, expõe com contundência um fenômeno que deixou de ser uma simples mudança de hábitos de consumo para se transformar em um grave problema social. As plataformas de apostas esportivas passaram a ocupar um espaço privilegiado na economia, na publicidade, no entretenimento e, sobretudo, na vida cotidiana dos brasileiros.
O problema vai além do direito individual de apostar. Jogos de azar existem há séculos e sempre existirão. O que distingue o momento atual é a industrialização da dependência. Nunca foi tão fácil perder dinheiro. Nunca houve tantos estímulos permanentes para que as pessoas apostassem, vinte e quatro horas por dia, com um celular na mão.
A lógica é conhecida. As plataformas prosperam porque uma minoria ganha, enquanto a esmagadora maioria perde. O lucro do setor depende precisamente da repetição do comportamento compulsivo. Quanto mais tempo alguém permanece preso ao ciclo da esperança, da perda e da tentativa de recuperação, maior é a rentabilidade do negócio.
Uma das questões a serem consideradas é que essa engrenagem passou a ser financiada pela própria sociedade. Clubes de futebol, emissoras de televisão, influenciadores digitais, atletas, ex-atletas, comentaristas e celebridades emprestam diariamente sua credibilidade às casas de apostas. Doses diárias de propaganda massiva invadem as telas, tornando onipresente os apelos à jogatina.
Bucci faz uma observação ética que deve ser levada muito a sério. Muitos dos que promovem essas plataformas jamais desejariam que seus próprios filhos desenvolvessem dependência em jogos de azar. Ainda assim, aceitam receber para incentivar os filhos dos outros a ingressarem nesse mercado. É uma inversão moral difícil de justificar, mas que está atrelada aos ganhos financeiros colossais envolvidos.
O futebol tornou-se o principal veículo dessa normalização do vício. A camisa do time, a placa de publicidade, a transmissão da partida e até a análise técnica convergem para a mesma mensagem: apostar faz parte da experiência esportiva. Aos poucos, o esporte deixa de ser espetáculo para transformar-se em vitrine permanente do jogo, num looping viciante e, em milhares de casos, desesperador.
Os números ajudam a explicar a dimensão do problema. Milhões de brasileiros destinam parte crescente da renda às apostas, inclusive famílias de baixa renda. Recursos que poderiam financiar alimentação, educação, poupança ou pequenos investimentos acabam transferidos para empresas cuja lucratividade depende exatamente da perda recorrente de seus clientes. Trata-se de uma gigantesca transferência de riqueza das camadas mais vulneráveis para um setor altamente concentrado.
Há ainda um efeito menos visível, mas igualmente ruinoso. A cultura da aposta substitui a cultura do esforço. Em vez do trabalho, do planejamento e da construção gradual do patrimônio, difunde-se a expectativa do ganho imediato, da sorte, do prêmio transformador. É a lógica da loteria aplicada à vida cotidiana.
Nenhuma sociedade se torna próspera incentivando seus cidadãos a trocar a disciplina pela ilusão estatística. Países ricos acumulam capital humano; o Cassino Brasil acumula bilhetes perdedores.
Regular o setor é necessário, mas insuficiente. A questão é também cultural e ética. Uma sociedade que remunera generosamente quem estimula comportamentos potencialmente destrutivos não pode se surpreender quando esses comportamentos se disseminam.
O Brasil enfrenta inúmeros desafios econômicos, educacionais e sociais. Transformar o vício em modelo de negócios e a esperança em mercadoria certamente não será o caminho para superá-los.
Se continuarmos naturalizando essa lógica, deixaremos de ser conhecidos como o país do futebol ou da criatividade. Corremos o risco de nos consolidarmos como aquilo que Bucci denunciou com precisão: uma nação que trocou o projeto de desenvolvimento pela ilusão permanente do cassino.
(Instagram: @edsonbundchen)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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