Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 29 de agosto de 2015
Os tratamentos contra o câncer envolvem debilitantes cirurgias e sessões de radio e quimioterapia, mas uma descoberta anunciada recentemente pode abrir caminho para novas terapias capazes de reprogramar as células cancerígenas, revertendo-as em saudáveis. De acordo com Panos Anastasiadis, diretor de Biologia do Câncer da Clínica Mayo, na Flórida (EUA), e coautor do levantamento, o achado representa “uma nova biologia que fornece o código, o software para desligar o câncer”.
A pesquisa foi publicada na revista acadêmica Nature Cell Biology. O “software” foi revelado pela descoberta que proteínas de adesão, uma espécie de cola que mantém as células unidas, interagem com o microprocessador, no caso o miRNA (microRNA), que desempenha papel fundamental na produção de moléculas.
Os pesquisadores descobriram que, quando células normais entram em contato umas com as outras, o miRNA suprime os genes que promovem o crescimento celular. Entretanto, quando a adesão acontece entre células cancerígenas, o miRNA fica desregulado e a multiplicação das células, fora de controle. Em experimentos em laboratório, o restabelecimento do nível normal do miRNA em células cancerígenas foi capaz de reverter a sua multiplicação. “O estudo revela uma nova estratégia para terapias contra o câncer”, afirmou Antonis Kourtidis, líder do trabalho.
O problema surgiu por causa de estudos conflitantes sobre a e-caderina e a p120-catenina, proteínas de adesão essenciais para a formação de tecidos epiteliais normais, e que há muito eram consideradas supressoras de tumores. Entretanto, diz Anastasiadis, a hipótese parecia falsa, pois pesquisas recentes mostraram que ambas as proteínas estão presentes em células cancerígenas. “Isso nos levou a crer que essas moléculas têm duas faces. A boa, que mantém o comportamento normal das células, e a má, que leva ao surgimento dos tumores.”
Essa teoria se mostrou verdadeira, mas faltava descobrir o que regulava esses comportamentos. A peça que faltava era outra proteína, chamada PLEKHA7, que se associa de forma superficial às outras duas e mantém o estado normal das células, formando um complexo com o miRNA, a e-caderina e a p120-catenina.
“Quando esse complexo é interrompido pela perda da PLEKHA7, o miRNA fica desregulado, e a e-caderina e a p120-catenina mudam de lado para se tornarem oncogênicas. Nós acreditamos que a perda do complexo PLEKHA7-miRNA é um evento precoce e, de alguma forma, universal no câncer. Na vasta maioria das amostras de tumores humanos que examinamos, essa estrutura está ausente”, explicou Anastasiadis.
Célula resiste a tratamentos.
De acordo com ele, experimentos iniciais de restabelecimento dos níveis normais da PLEKHA7 “se mostraram promissores em alguns tipos agressivos de câncer”.
Entretanto, ainda é cedo para se pensar em uma nova terapia. Para o oncologista Celso Rotstein, consultor médico da Fundação do Câncer, a descoberta “aprofunda o conhecimento sobre os mecanismos que fazem a célula cancerígena se reproduzir sem controle”.
De acordo com ele, a ciência está passando por um período de rápido aprofundamento do conhecimento sobre o fenômeno oncogênico, sobre o surgimento dos tumores, e novas formas de combate à doença estão surgindo, como as imunoterapias e os medicamentos alvo moleculares. “O problema é que a célula neoplásica é extremamente instável. Isso significa que ela vai se tornando resistente aos tratamentos”, diz ele. (AG)
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