Segunda-feira, 08 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 7 de junho de 2026
Uma peculiaridade genética pode ajudar a explicar por que medicamentos à base de GLP-1, como Ozempic, não funcionam tão bem em alguns pacientes com diabetes tipo 2. Uma pesquisa da Stanford Medicine, em colaboração com cientistas de outros países, sugere que cerca de 10% das pessoas carregam variantes genéticas ligadas a um fenômeno conhecido como resistência ao GLP-1, hormônio que ajuda a regular os níveis de açúcar no sangue.
Segundo o estudo, publicado na revista Genome Medicine, indivíduos com essas variantes parecem produzir níveis mais altos de GLP-1, mas o hormônio não atua com a mesma eficácia no organismo. A descoberta pode ajudar a explicar por que parte dos pacientes responde menos aos agonistas do receptor de GLP-1, classe de medicamentos que inclui o Ozempic.
Os pesquisadores destacam que o estudo se concentrou no controle da glicose no sangue e não chegou a conclusões firmes sobre efeitos relacionados à perda de peso. Medicamentos como Ozempic e Wegovy costumam ser prescritos em doses mais altas para tratamento da obesidade do que para diabetes, e ainda são necessárias novas pesquisas para saber se os mesmos fatores genéticos influenciam o emagrecimento.
“Em alguns dos ensaios, vimos que indivíduos que tinham essas variantes não conseguiam reduzir seus níveis de glicose no sangue com a mesma eficácia após seis meses de tratamento”, disse Anna Gloyn, professora de pediatria e genética da Stanford Medicine e uma das autoras seniores do estudo.
Segundo a professora, esse é justamente o período em que médicos frequentemente avaliam a necessidade de mudar o tratamento de um paciente. Identificar com antecedência quem tem maior ou menor chance de responder aos medicamentos poderia aproximar o tratamento do diabetes da chamada medicina de precisão.
“Quando trato pacientes na clínica de diabetes, vejo uma enorme variação na resposta a esses medicamentos baseados em GLP-1, e é difícil prever essa resposta clinicamente”, afirmou Mahesh Umapathysivam, endocrinologista e pesquisador clínico da Universidade de Adelaide, na Austrália, e um dos autores principais do trabalho. “Este é o primeiro passo para conseguir usar a composição genética de uma pessoa para nos ajudar a melhorar esse processo de tomada de decisão”, concluiu.
A equipe analisou duas variantes genéticas que reduzem a atividade de uma enzima chamada PAM, sigla para peptidil-glicina alfa-amidante monooxigenase. Essa enzima atua na ativação de diferentes hormônios, incluindo o GLP-1.
“PAM é uma enzima verdadeiramente fascinante porque é a única enzima que temos capaz de um processo químico chamado amidação, que aumenta a meia-vida ou a potência de peptídeos biologicamente ativos”, disse Gloyn. “Pensamos: se você tem um problema com essa enzima, haverá múltiplos aspectos da sua biologia que não estão funcionando corretamente”, acrescentou.
Para investigar o fenômeno, os cientistas recrutaram adultos com e sem uma variante da PAM chamada p.S539W. Os participantes, que não tinham diabetes, beberam uma solução açucarada, e amostras de sangue foram coletadas a cada cinco minutos durante quatro horas. A escolha por pessoas sem diabetes buscou reduzir a influência de outros fatores nos resultados.
A expectativa inicial era que participantes com a variante apresentassem níveis menores de GLP-1, já que o hormônio poderia ser menos estável sem a amidação adequada. O resultado, no entanto, surpreendeu os pesquisadores.
“O que vimos, na verdade, foi que eles tinham níveis aumentados de GLP-1”, disse a pesquisadora. “Isso foi o oposto do que imaginávamos que encontraríamos”.
Detalhes do estudo
Apesar da maior circulação do hormônio, não houve evidência de maior atividade biológica. Essas pessoas não reduziram os níveis de açúcar no sangue mais rapidamente. Na prática, era necessário mais GLP-1 para produzir o mesmo efeito, sinal de resistência ao hormônio.
“Essa é a pergunta de um milhão de dólares” afirma Gloyn, sobre a causa exata da resistência ao GLP-1. “Marcamos como concluída uma lista enorme de todas as formas pelas quais achávamos que a resistência ao GLP-1 poderia surgir. Não importa o que tenhamos feito, não conseguimos determinar precisamente por que eles são resistentes”.
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