Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 19 de outubro de 2015
Um método de modificação de genes pode um dia tornar órgãos de porcos adequados para uso em pessoas, de acordo com cientistas. George Church e seus colegas usaram uma técnica chamada Crispr para alterar o DNA de células de porco e torná-las compatíveis com humanos.
O trabalho preliminar, publicado na revista científica Science, trata de preocupações sobre possibilidade de rejeição e infecção por vírus presentes no DNA do porco. Se esses problemas forem resolvidos, a técnica pode ser a resposta para os baixos índices de doação de órgãos.
Mas serão necessários mais anos de pesquisa para que porcos geneticamente modificados possam ser criados para abrigar órgãos que serão usados em pessoas. Em termos de funcionalidade de órgãos, os porcos são os mais compatíveis com os humanos – suas partes têm o mesmo tamanho, são bastante similares.
Técnica inovadora.
O Crispr é uma ferramenta científica relativamente nova que permite que cientistas rearranjem códigos de DNA. A técnica de edição genômica está revolucionando os laboratórios de genética por sua simplicidade e enorme eficácia. Ela ficou conhecida sobretudo porque permite manipular o genoma humano e, por isso, é a grande esperança atual para corrigir as 5 mil doenças hereditárias descritas, entre elas as doenças raras, que afetam poucas pessoas cada uma, mas que, em conjunto, constituem um grave empecilho à saúde de uma parcela significativa da população.
Church, da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, usou a técnica para desativar retrovírus endógeno que reside no DNA do porco. Esse retrovírus suíno é perigoso porque pode infectar células humanas – pelo menos no laboratório. Em testes com jovens embriões de porcos, Church conseguiu eliminar todas as 62 cópias dos retrovírus das células de porco usando a técnica Crispr.
Os retrovírus são um obstáculo particularmente complicado. Enquanto os vírus convencionais podem ser eliminados criando os porcos em condições de biossegurança, os retrovírus continuam tendo seus genomas integrados ao genoma suíno e, por isso, podem se reativar depois do transplante, infectando as células humanas e causando uma catástrofe no corpo do paciente. O bem-sucedido processo de eliminar todos os 62 genomas foi um notável avanço tecnológico.
Em seguida, Church checou se as células modificadas ainda transmitiriam com facilidade o retrovírus para as células humanas. Isso não ocorreu, embora ainda tenha havido uma pequena taxa de transmissão.
Church afirma que a descoberta traz grandes esperanças para o uso de órgãos de animais em humanos – o que os médicos chamam de xenotransplante. Sarah Chan, especialista da Universidade de Edinburgo, na Escócia, disse: “Mesmo depois que as questões científicas e de segurança forem resolvidas, ainda deveríamos considerar possíveis preocupações culturais e impactos sociais associados a um uso disseminado de órgãos de porcos para transplante humano”.
“Apesar disso, o resultado do estudo é valioso tanto como prova deste princípio como um possível passo para avanços terapêuticos nesta área, que ainda precisa de bastante pesquisa.”
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