Terça-feira, 26 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 6 de janeiro de 2018
O jornalista Carlos Heitor Cony morreu na sexta-feira às 23h. Ele estava internado no Hospital Samaritano e morreu após falência de múltiplos órgãos. Escritores e colegas lamentaram a sua morte.
A escritora e imortal da ABL Ana Maria Machado, 76 anos, afirmou que Cony “foi um grande escritor, um dos maiores de nosso tempo, e, para minha geração, também um símbolo de coragem e independência. Foi o primeiro jornalista a levantar a voz, com veemência, em oposição ao golpe militar de 1964, escrevendo no ‘Correio da Manhã’.”
“O convívio com ele era adorável. Sempre muito engraçado, dotado de um humor corrosivo e meio anárquico, tinha algumas tiradas inesperadas. Ele gostava muito de jabuticabas. Quando adoeceu, já faz alguns anos, eu fazia questão de lhe levar jabuticabas em casa quando chegava a época da fruta. Mais do que alimentar a gulodice, era para lembrar a ele minha amizade e meu carinho”. Marco Lucchesi, presidente da Academia Brasileira de Letras, afirmou que “nós perdemos uma escola e eu perco um amigo.”
Para Lucchesi, “Cony era corajoso e livre, que é o que precisamos no Brasil de hoje. Era um homem incapturável, de uma liberdade intensa na escrita e na visão do país. Não havia tendência que o capturasse. A literatura de Cony é, em si mesmo, um continente: são muitas geografias e climas que habitam a obra dele. Vai fazer muita falta, porque não ficou preso a sua própria geração.”
O presidente Michel Temer lamentou a morte de Cony. “É com tristeza que recebo a notícia da perda de Carlos Heitor Cony, um dos mais cultos e preparados pensadores nacionais. O jornalista atuou nos principais jornais e revistas do País. Meus sentimentos à família e aos amigos.”
O governador do estado de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB-SP) escreveu sobre a morte do escritor: “Carlos Heitor Cony é imortal, já sabíamos. Mesmo isso não diminui a tristeza de perder o convívio cotidiano com o que foi uma incessante produção literária e jornalística; com a capacidade espetacular que Cony tinha de ora nos comover, ora nos indignar, de nos fazer refletir sempre sobre a condição humana. Foi-se um mestre. Nosso carinho aos seus familiares e amigos”.
Arnaldo Niskier, membro da ABL, lembrou um episódio em que o cardeal Dom Lucas Moreira Neves tentou convencer Cony a recuperar sua fé cristã. “Estávamos num almoço com o cardeal numa visita ao Vaticano, quando Dom Lucas Neves me pediu para conversar a sós com Cony. Depois ele me contou que o cardeal queria que ele voltasse para a igreja, recuperasse a fé, coisa que ele tinha perdido completamente”, afirmou Niskier. Niskier, que o recebeu na ABL em 2000, afirmou que o livro “Quase memória” é “uma lição de literatura”. “É um exemplo de como se deve fazer um romance, num espaço reduzido. Ele [o livro] diz tudo”, afirmou.
Nelida Piñon, escritora e integrante da ABL, acredita que o escritor “deixa a marca de seu talento da generosidade”. “Ao longo de sua ascensional trajetória, houve um hiato muito grande durante o qual ele deixou a literatura, repudiou a literatura, disse que nunca mais ia escrever. Mas quando ele volta com o “Quase Memória”, ele tem o privilégio de completar um ciclo. Quando se completa um ciclo, há uma avaliação mais complexa. Hoje nós o vemos como um brasileiro participante, um enorme jornalista, mas sobretudo um grande escritor”
Cícero Sandroni, imortal da ABL, relembrou a relação de Cony com a Academia Brasileira de Letras. “Foi um grande escritor, um herdeiro do realismo carioca de Joaquim Manuel de Macedo e Marques Rebelo. Entrou na Academia Brasileira de Letras, mas sempre foi meio crítico em relação a ela. Lembro uma brincadeira que ele fazia quando tinha posse lá, porque nós temos que ir de fardão. ‘Ô Cícero! Estamos aqui parecendo um grupo de grilos falantes!’, dizia, porque o fardão é verde e tem um rabo.”
O autor de novelas Walcyr Carrasco afirmou que Cony era um “mestre na arte de observar a vida e na arte de transformar isso em texto”. Carrasco relembrou a crônica de Cony sobre a perda de sua cadela, Mila. “Me deleitava lendo suas crônicas nos jornais ou um de seus livros – produzia muito e com extrema qualidade. Uma grande perda que deixa um legado lindíssimo para quem, como eu, ama ler e escrever. Tinha um amor enorme por sua cadelinha Mila assim como tenho pela minha.”
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