Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 7 de janeiro de 2018
Sentado no sofá da sala e apoiado na bengala de madeira, o ex-deputado federal e ex-presidente do PP (Partido Progressista) Pedro Corrêa, condenado pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, recebeu a reportagem na última quarta-feira (3), a quatro dias de completar 70 anos, em sua cobertura com vista para a praia de Boa Viagem, em Recife (PE).
Preso há mais de quatro anos, sendo os dez últimos meses em regime domiciliar fechado, ou seja, sem poder sair de casa, Corrêa é o primeiro condenado no mensalão e na Lava-Jato a dar uma entrevista e detalhar os crimes que cometeu.
“Vamos sentar ali na mesa, por onde entra brisa”, disse, acomodando-se diante da janela de frente para o mar.
Uma adega climatizada para vinhos, uma moderna geladeira para cervejas e uma enorme televisão de LED contrastam com a grande quantidade de móveis antigos que se amontoam na sala tomada por quadros de artistas nordestinos, herança dos pais de Corrêa, segundo o próprio. Ele veste bermuda azul com listras da Adidas, camiseta da mesma cor e sandálias de borracha, Nas pernas à mostra, não há tornozeleira eletrônica. Corrêa conta que foi autorizado temporariamente a não usar o aparelho devido aos exames e cirurgias que fez nos últimos meses.
Em mais de cinco horas de conversa, com pausa para andar na sala e jantar com a família, o ex-deputado gargalhou ao lembrar dos tempos de preso, bateu no peito garantindo que ainda se elegeria para a Câmara e confirmou que participou permanentemente de esquemas de corrupção e de compra de votos nos quase 30 anos de vida pública. Também detalhou um acordão para tentar salvar todos os envolvidos no mensalão a partir da narrativa de que se tratava apenas de caixa dois. Os idealizadores seriam dois dos mais famosos advogados do País — Márcio Thomaz Bastos e Arnaldo Malheiros Filho, mortos em 2014 e 2016, respectivamente — e o avalista, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
“Não foi um acordão que funcionou. Foi invenção do Malheiros, que era advogado de Delúbio (Soares, ex-tesoureiro do PT) e transmitiu isso ao Márcio Thomaz Bastos, que o assunto do mensalão seria caixa dois. Tanto é que Lula deu uma entrevista em Paris falando sobre o negócio de caixa dois, que era errado, mas que todo mundo tinha feito, incluindo o PT. Foi um entendimento porque o Thomaz Bastos e o Malheiros achavam que era um crime menor e que estava prescrito”.
Segundo Corrêa, o próprio Lula participou de reuniões com os advogados e os réus do mensalão em que a tese foi apresentada para tranquilizá-los.
Questionado sobre as afirmações do ex-presidente do PP, o advogado de Lula, Cristiano Zanin, negou as acusações e disse que “a palavra de um criminoso confesso e que recebeu benefícios do Ministério Público Federal para acusar Lula sem provas, não merece qualquer credibilidade”.
O criminalista também afirmou que a opinião de Corrêa não pode se sobrepor à posição do ex-procurador-geral da República e ao julgamento do Supremo Tribunal Federal, que não identificaram elementos que relacionassem o petista ao mensalão. Procurado, Costa Neto disse, por meio de sua assessoria de imprensa, que não comenta conteúdos que foram examinados pelo Judiciário.
Eleito deputado federal pela primeira vez em 1978 pela Arena, o ex-parlamentar, que também é médico radiologista, exerceu seis mandatos consecutivos na Câmara até ser cassado, em 2006, e confessou que em todos participou de esquemas de corrupção. “Desde que cheguei na Câmara tinha isso. O cara fazia um favor a um empresário, e o empresário dava retribuição em dinheiro para a campanha. Agora se respeitava mais, se recebia sempre no período da campanha. Depois, os empresários começaram a se esconder no período da campanha. Foi quando começou o negócio de antecipar a arrecadação.”
Pedro Corrêa se define como “um político da sua geração”, que comprava votos para se manter no poder. Mas nega ter enriquecido na vida pública – os recursos que arrecadava teriam sido para “fazer política”.
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