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Mundo Documentos secretos abertos nos Estados Unidos mostram a participação do Brasil na queda do presidente do Chile Salvador Allende

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Historiador americano Peter Kornbluh divulgou documentos oficiais que estavam sob sigilo há 50 anos. (Foto: Institute for Policy Studie/ Wikipedia)

Em 15 de setembro de 1970, em uma reunião de 20 minutos, o então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, deu ordem para impedir que o líder socialista eleito do Chile, Salvador Allende, assumisse o poder. Nixon ordenou que seus agentes prejudicassem a economia do Chile, produzissem um clima de golpe e construíssem um pretexto para a tomada de poder pelos militares. Esse “roteiro”, que terminou com o golpe de 11 de setembro de 1973, foi concluído em agosto de 1970, antes do triunfo eleitoral de Allende.

A revelação foi feita no mês passado, quando o historiador Peter Kornbluh divulgou pela primeira vez papéis oficiais mantidos sob sigilo por 50 anos que comprovam a ordem de Nixon.

Kornbluh é pesquisador dos Arquivos de Segurança Nacional, de Washington, e autor do livro Pinochet: Os Arquivos Secretos. Sua carreira é dedicada à liberação e publicação de documentos oficiais secretos. O fim do sigilo dos relatórios chamados de A Opção Extrema: Derrubar Allende, divulgados pelo Arquivo de Segurança Nacional, permitiu ao mundo conhecer a conversa entre Nixon, e o diretor da CIA, Richard Helms, em setembro de 1970, quando os dois falaram sobre como inviabilizar o governo chileno.

Em 1970, Allende se tornou o primeiro socialista a chegar à presidência de um país sulamericano com a força do voto. No poder, ele tentou emplacar uma reforma agrária e nacionalizar a indústria do cobre. A reação foi uma série de locautes patronais que desestabilizaram o país, até que um golpe de Estado, em 11 de setembro de 1973, instalou a violenta ditadura chefiada pelo general Augusto Pinochet.

O papel dos EUA no golpe contra Allende, que se matou quando as tropas cercavam o Palácio La Moneda, sempre foi obscuro. A CIA negou envolvimento, mas os documentos revelados por Kornbluh mostram que o governo americano teve uma participação direta na queda.

Os documentos mencionam ainda que os EUA poderiam obter apoio de Brasil e Argentina, “centros de poder” que “podemos influenciar”. Para além do papel no início do golpe do Chile e do apoio à ditadura de Pinochet, documentos divulgados em 2009 revelam que o Brasil conspirou com os EUA. Esta é uma história ainda a ser contada, segundo Kornbluh.

Por anos, a diplomacia brasileira se orgulhou de manter uma tradição de não intervenção em outros países, especialmente vizinhos. A primeira fissura veio com a Operação Condor, quando ficou provado que a ditadura brasileira arquitetou com outros regimes militares da região, uma campanha de terrorismo de Estado, promovendo assassinatos e torturas de dissidentes políticos.

Um novo capítulo sobre o esforço brasileiro para interferir em assuntos de países vizinhos, segundo Kornbluh, vem sendo escrito por documentos secretos, que vêm sendo abertos ao público a conta-gotas, sobre a participação brasileira no golpe que derrubou Allende.

“Sem um registro completo do exercício do poder pelo Brasil no Cone Sul, essa história permanecerá incompleta. O acesso aos arquivos de inteligência brasileiros é fundamental. É uma história que permanece em grande parte não contada”, afirma. Não se sabe, por exemplo, até que ponto a inteligência militar brasileira e os americanos coordenaram as ações contra Allende entre 1971 e 1973. “Pode ser que alguns documentos tenham sido destruídos, mas é muito difícil acabar com todos. Tenho grande fé que mais documentos vão aparecer”, diz.

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