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Lenio Streck E a Bíblia acaba sendo como o Direito: uma algaravia interpretativa

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Entre as pessoas infectadas pela Covid-19 no RS, 892.039 (96% dos casos) já se recuperaram da doença. (Foto: Reprodução)

Vendo a TV Justiça, constatei que o canal acaba sendo um veículo para gente desconhecida aparecer em rede nacional. Quinze segundos de fama.

No caso do julgamento do “direito fundamental de morrer de COVID por aglomeração” (esse é, no fundo, o nome para o pretenso direito de ir à missa e cultos durante a maior pandemia já vista), os argumentos dos defensores dessa tese (de ir aos cultos) esteve baseada não na Constituição, mas, sim, na Bíblia – isso tudo em um Estado Laico. Os dois votos no STF até que se esforçaram em buscar argumentos menos teológicos. Já os advogados, não (falo dos que defenderam o direito esse de ir aos cultos).

Teve um dos causídicos que até ameaçou o Supremo Tribunal com o castigo divino. Deus está vendo, disse. Pois é. Deus está vendo tanta coisa, inclusive gente que explora a fé das pessoas vendendo toalhinhas e garrafinhas de óleo para a cura do COVID.

Ora, em que medida a proibição de reuniões em igrejas atingiria o direito à fé do cristão? Não encontro resposta em algum dispositivo. Desde quando liberdade de crença quer dizer “liberdade de, mesmo em pandemia, os cultos funcionarem presencialmente?”. Vai saber.

De todo modo, como parece que os governantes e parcela das igrejas (seus mandatários e fiéis) não aceitam argumentos jurídicos, talvez aceitem argumentos teológicos. Vamos, pois, à Bíblia. Aliás, os defensores foram à Tribuna do STF falar da Bíblia. Pois eu, que também sou leitor da Bíblia, trago o outro lado. Uma boa hermenêutica teológica!

Com efeito, o Evangelista Mateus escreve no Capítulo 6, versículos 5 a 8 sobre isso:

“E quando vocês orarem, não sejam como os hipócritas. Eles gostam de ficar orando em pé nas sinagogas e nas esquinas, a fim de serem vistos pelos outros. Eu lhes asseguro que eles já receberam sua plena recompensa.

Mas quando você orar, vá para seu quarto, feche a porta e ore a seu Pai, que está no secreto. Então seu Pai, que vê no secreto, o recompensará. E quando orarem, não fiquem sempre repetindo a mesma coisa, como fazem os pagãos. Eles pensam que por muito falarem serão ouvidos. Não sejam iguais a eles, porque o seu Pai sabe do que vocês precisam, antes mesmo de o pedirem”.

Toma. Está ali em Mateus, tim tim por tim tim.

Encontrei comentários de teólogos sobre esses dispositivos da Bíblia Sagrada. Há vasto material. A hermenêutica de Mateus, Marcos e Lucas, no ponto, é a seguinte: Deus quer que cada pessoa tenha com ele um contato pessoal e exclusivo. Por isso, a recomendação de sair da agitação, do meio das pessoas e ir a um lugar calmo e sossegado, sem ninguém ao redor parar orar, onde é possível falar com Deus sem interrupção ou perturbações. Esta é a recomendação de Jesus.

E Jesus não só diz como isso dever feito; ele próprio praticou o que ele disse e recomendou. Em Mateus 14.23, após a multiplicação dos pães e peixes, Jesus despediu as multidões e foi… orar sozinho no alto do monte. Sozinho.

Também Marcos 1.35 conta que Jesus levantou alta madrugada e foi para um lugar deserto orar.

Em Lucas 6.12, lê-se que, antes da escolha dos doze discípulos, o Mestre se retirou para o monte… e, solo, orou a Deus.

Antes de ser preso, no jardim do Getsêmani, Jesus retirou-se sozinho para orar a Deus. Jesus procurava lugares de silêncio, de paz, de sossego para orar a Deus.

Não há um direito fundamental a se aglomerar. Nem há um direito fundamental a jogar perdigotos com vírus de COVID nas outras pessoas. Se Deus está vendo, deve estar decepcionado com a humanidade. Deve estar muito irritado com gente que quer aglomerar, ir aos cultos (e pagar muitos dízimos!), fazer festas, ir à praia e quejandos. Se vier um mini-dilúvio aí, não nos queixemos.

Por fim, adoração cristã é em Espírito e em verdade (João 4:23,24), algo que a reforma resgatou: Sola gratia, Sola fide e Solus Christus.

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