Quinta-feira, 21 de maio de 2026
Por Diogo Angioleti | 21 de maio de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Imagine a seguinte situação: uma pessoa decide emagrecer e treinar mais para melhorar a qualidade de vida. Para isso, passa a semana toda comendo bem, vai três na semana a academia, bebe dois litros de água por dia e se sente, ao fim de sete dias, transformada. Na semana seguinte, imprevistos aparecem, come mal, não cumpre a meta de exercícios. Desiste, piora, se sente culpada. Depois de um tempo, consegue retomar a rotina. Essa pessoa vive um sobe e desce, uma inconstância. O que aconteceu? O problema não foi a vontade, mas a falta de estrutura para sustentar o que foi aprendido. Com a educação financeira, acontece exatamente a mesma coisa.
Até o dia 24 de maio de 2026, o Brasil realiza a 13ª edição da Semana Nacional de Educação Financeira, a Semana ENEF. O tema escolhido pelo Fórum Brasileiro de Educação Financeira (FBEF) é poderoso: “Educação Financeira: construindo um futuro com longevidade e prosperidade”. A proposta é ampliar o olhar para o longo prazo, reconhecendo que as pessoas estão vivendo mais e precisam se preparar financeiramente para todas as fases da vida – do presente ao futuro, que resume bem o espírito da iniciativa: planejar hoje é a ponte entre os sonhos e a vida que se quer viver ao longo de toda a jornada.
Mas deixe-me fazer uma pergunta honesta: o que acontece na semana seguinte? Os números são um espelho que desconforta, mas que precisamos encarar. O Relatório de Cidadania Financeira do Banco Central de 2025 acendeu um sinal vermelho: 87% dos brasileiros erram questões sobre juros simples. E em oito anos, o número de jovens entre 15 e 29 anos endividados dobrou, alcançando 27,6 milhões de pessoas.
Em janeiro de 2026, a Confederação Nacional do Comércio (CNC) revelou que 80% das famílias brasileiras estavam endividadas – quase oito em cada dez. E num ranking da OCDE com 39 países, o Brasil ocupa a 21ª posição em letramento financeiro – com desempenho ainda pior entre os jovens, onde ficamos na terceira pior colocação internacional. Não é falta de inteligência e nem preguiça. O que temos aqui é ausência de um ambiente que ensine, sustente e acolha o aprendizado financeiro de forma contínua.
A educação financeira que transforma vidas precisa de três pilares que uma semana, por melhor que seja, não consegue oferecer sozinha: estrutura, continuidade e pertencimento.
Estrutura significa que o tema precisa ter espaço garantido – no currículo escolar, no onboarding das empresas, no programa educativo das cooperativas, no calendário anual das organizações e nas conversas diárias das mesas das famílias. Não como algo esporádico, mas como coluna vertebral de uma estratégia de desenvolvimento humano.
Continuidade é o que transforma intenção em hábito. Antes de ensinar alguém a poupar ou investir, é preciso garantir que essa pessoa tenha consciência do seu orçamento. Precisamos entender que é necessário conhecer mais sobre conceitos de gestão de finanças pessoais e aprender a celebrar pequenos avanços que diminuirão as recaídas.
Pertencimento, talvez o mais subestimado dos três. Aprender sobre dinheiro num ambiente seguro, onde a dúvida não envergonha e a troca de experiência é real, muda tudo. Quando a pessoa se sente parte de algo, ela persiste. E quando ela persiste com sua família e amigos ela aprende de verdade.
Um projeto de vida começa com uma decisão.
Voltando àquela pessoa que tentou melhorar a qualidade de vida durante uma semana: a diferença entre quem consegue transformar o hábito e quem não consegue raramente está na informação. Está no ambiente. Em ter alguém ao lado. Está em ter um lugar para voltar quando tudo parece difícil demais.
Educação financeira é exatamente isso: não cabe em uma só palestra, ou em um e-book. Nem mesmo cabe em uma semana isoladamente, por mais bem intencionada que ela seja. É um projeto de vida, que precisa de espaço para crescer, de tempo para enraizar e de pessoas para compartilhar o caminho.
A 13ª Semana ENEF nos lembra que longevidade e prosperidade caminham juntas. Eu acrescento: elas só chegam para quem constrói, tijolo por tijolo, dia após dia, uma relação saudável, consciente e contínua com o próprio dinheiro.
Que esta semana seja um ponto de partida, e não o destino. E que você comece hoje a construir um belo futuro para você e as pessoas que mais ama.

* Diogo Angioleti
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
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