Quarta-feira, 17 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 27 de junho de 2023
O aliado virou traidor – ao menos por algumas horas e nas entrelinhas. De sexta-feira (23) a sábado (24), Yevgeny Prigozhin, chefe do grupo Wagner, criado quase 10 anos atrás para atender justamente aos interesses de Vladimir Putin, tomou uma cidade russa com facilidade e avançou pelo país ameaçando chegar a Moscou.
A situação foi resolvida com panos quentes, colocados pelo próprio presidente da Rússia, que viu sua imagem ser abalada, como avalia Tanguy Baghdadi, professor de Política Internacional na Universidade Veiga de Almeida em entrevista ao podcast O Assunto, do portal de notícias G1.
“O Putin, me parece agora, e eu acho que é a primeira vez que a gente pode falar isso em quase 24 anos de Putin como presidente, ele dá a sensação de não ser mais intocável como ele foi ao longo desse período inteiro.”
E o acordo entre as duas partes, feito por Alexander Lukashenko, presidente de Belarus, é uma incógnita que ainda vai levar tempo para ser entendida, na opinião de Tanguy.
“Não deu para engolir muito ideia de que ‘ah, ok, eu virei as costas, voltei, vou pra Belarus e vai ficar tudo bem’. A gente aceitar isso seria aceitar que o Prigozhin, depois de toda a carreira que ele fez, de toda a força que ele ganhou, ele teria se aposentado, né? E realmente eu não consigo acreditar nisso.”
Violento e influente, Prigozhin foi condenado a 13 anos de prisão por assaltos nas ruas de São Petersburgo em 1981. Fora da cadeia, começou a vender cachorro-quente até que o negócio cresceu e virou um restaurante chique, local onde conheceu Putin.
Tanguy, entretanto, diz ver claramente intenções políticas nas ações de Prigozhin para as eleições russas do ano que vem.
“Eu acho que a intenção dele era aparecer eventualmente como um substituto do Putin”, acredita Tanguy — e, justamente por isso, toda a rebelião vista na semana passada não teve Putin propriamente como foco, apesar de ter arranhado a imagem do presidente da Rússia.
“Então, se o Putin quiser descansar, se ele quiser sair, o Prigozhin seria alguém em que ele poderia confiar, tanto é que ele é muito cuidadoso nessas críticas que ele faz. Eu sei que pode parecer que ele está colocando todo mundo no mesmo balaio, mas ele fala contra a classe oligárquica, que ele faz parte também, […] e contra a classe militar, mas ele não ataca o Putin em si.”
Objetivo
Na primeira manifestação após o fim de um motim, o líder do grupo paramilitar Wagner, Yevgeny Prigozhin, disse, na segunda-feira (26), que a marcha em direção a Moscou, abortada após negociação com o governo russo, não tinha por objetivo derrubar o governo de Vladimir Putin, presidente da Rússia.
“O objetivo da marcha era evitar a destruição do ‘Wagner’ e responsabilizar os funcionários que, por meio de suas ações não profissionais, cometeram um grande número de erros”, disse o paramilitar em uma mensagem de áudio de 11 minutos, divulgada pelo Telegram.
Prigozhin afirmou ainda que recuou para “evitar um derramamento de sangue de soldados russos”.
Desde o fim da mobilização não se sabe a localização exata de Prigozhin. O acordo feito com o governo russo previa que ele viveria em exílio em Belarus.
Há meses, Prigozhin vinha tendo desentendimentos com o Ministério da Defesa russo por conta da falta de armas e suprimentos de guerra para suas tropas.
A relação entre o chefe da organização paramilitar e o governo russo estremeceu ainda mais após um suposto ataque da Rússia contra acampamentos do grupo, que teria matado diversos integrantes do Wagner.
No início do mês, o Ministério da Defesa da Rússia disse que tropas voluntárias e grupos militares privados seriam obrigados a assinar um contrato com o governo. A medida não agradou os membros do Wagner.
Na última sexta-feira, depois de meses de cobranças e críticas ao Ministério da Defesa russo, Prigozhin decidiu subir o tom e chama a versão do Kremlin para a guerra na Ucrânia de “mentiras inventadas”. O líder também acusou o ministro da pasta, Serguei Shoigu, de ter ludibriado Putin para a guerra.
“O Ministério da Defesa está tentando enganar a sociedade e o presidente e nos contar uma história sobre como houve uma agressão louca da Ucrânia e que eles planejavam nos atacar com toda a Otan. A guerra era necessária para que Shoigu pudesse obter uma segunda medalha . A guerra não era necessária para desmilitarizar ou desnazificar a Ucrânia (o principal argumento de Putin à época da invasão).”
Na mensagem divulgada por Prigozhin nesta segunda-feira, o líder do grupo Wagner afirma que nenhum dos seus homens concordou com o acordo previsto. O russo disse ainda que sua marcha para a capital Moscou revelou diversos problemas na segurança do território russo. As informações são do portal de notícias G1.
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