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Brasil Especialistas avaliam que a greve nacional dos caminhoneiros gera incerteza no mercado e traz risco de aumento da inflação

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Dados fracos do fim de 2019 levam a revisão de expectativas; indústria e reformas preocupam. (Foto: Agência Brasil)

O clima de incerteza que abala a confiança na já fragilizada economia brasileira é apontado por economistas como a repercussão mais negativa da greve nacional dos caminhoneiros. Para Luiz Roberto Cunha, professor do departamento de Economia da PUC-RJ, com atividades paralisadas e demora na negociação de soluções para encerrar a paralisação, o País sentirá os primeiros efeitos na trajetória de inflação.

Segundo ele, a escassez e aumento de preços de produtos, especialmente alimentos e combustíveis, pressionam o índice de preços pelo grande peso no cálculo dos valores finais dos produtos. Além disso, a recuperação econômica, que ocorria lentamente, poderá ser afetada se a resistência prevalecer.

“O clima de instabilidade e incerteza prejudica fortemente o investimento interno e externos, e abala a confiança do empresário. Sob o ponto de vista da recuperação econômica, há prejuízo generalizado na atividade econômica e risco para as exportações. A incerteza é muito ruim e podemos verificar repercussões no câmbio e na situação fiscal do País”, observa Cunha.

Para o coordenador do MBA em gestão financeira da FGV (Fundação Getulio Vargas), Ricardo Teixeira, a solução adotada pelo governo, de congelamento do preço do diesel e subsídio para ao preço de combustível, traz duas consequências econômicas: de um lado, tira a confiança empresarial e, por outro lado, o Tesouro Nacional terá que bancar os impactos da medida, aprofundando ainda mais o déficit fiscal brasileiro.

O professor da FGV menciona que o próximo setor econômico a ser impactado pela greve é o agronegócio, na medida em que não há escoamento da produção: “O que o governo perdeu nessa negociação terá que recuperar no mercado. No curto prazo, a opção deverá ser a adoção de subsídios, mas essa política já se mostrou equivocada no médio e longo prazos por gerar pressão inflacionária. O Brasil produz petróleo e precifica o produto de acordo com preço internacional e nos últimos tempos o preço do barril disparou. A providência, por enquanto, é não mexer na gestão da Petrobras”.

Impacto inflacionário

Já o professor de Finanças e Economia Alexandre Espírito Santo, do Ibmec/RJ, sublinha que o governo ainda precisa discutir o tamanho e impacto do subsídio no orçamento. Ele questiona:

“O governo teve que ceder demais e subsídio sem definir um horizonte se torna um problema crônico e fica muito grave. Já temos uma questão fiscal grave porque ajustes não foram feitos. A reforma da Previdência e a Tributária não estão mais sendo discutidas. Em 2016, foi aprovado o teto de gastos e com isso no ano que vem teremos um problema no orçamento. Se o governo subsidiar ainda R$ 5 bilhões, de onde vai sair esse dinheiro?”.

Os efeitos mais imediatos para a economia serão sentidos, segundo economistas, nos índices de inflação, mas o tamanho e a intensidade do impacto dependem do tempo que o governo demorará para obter um acordo com os grevistas.

Conforme especialistas, se a negociação conseguir encerrar a greve em um ou dois dias, haverá repercussão mais residual nos setores produtivos que poderão retomar a produção e o escoamento. “O problema maior é o efeito na economia e o risco de essa decisão dos caminhoneiros contaminar outras categorias. Isso é o pior que pode acontecer: uma categoria começar a ser contaminada por outra e tivermos um efeito-dominó”, prossegue Espírito Santo.

Construção Civil

O Snic (Sindicato Nacional da Indústria do Cimento) informou que, em decorrência da greve dos caminhoneiros, apenas 5% da produção de cimento de todo o pais está sendo entregue em seus destinos. Em média, são distribuídos diariamente 200 mil toneladas de cimento no Brasil. Hoje, 96% da distribuição de cimento no país é realizada por transporte rodoviário.

Como as fábricas funcionam em regime de operação contínua, cimenteiras estão sofrendo impactos na distribuição e nas entregas dos insumos necessários à sua fabricação. Já há uma redução nos estoques de matérias-primas necessárias à produção de cimento, que é perecível e também exige condições especiais de armazenagem e transporte.

O Snic também ressalta que, mesmo após o final da greve dos caminhoneiros, será necessário um período de ajustamento de pelo menos duas a três semanas para que o funcionamento das fábricas de cimento seja normalizado.

Além dos impactos econômicos, o Sindicato alerta para os desdobramentos da paralisação dos caminhoneiros para a cadeia da construção civil, afetando diretamente a manutenção dos empregos da indústria da construção.

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