“Estamos dispostos a trabalhar, ouvir e trocar ideias com todos, mas perdemos o interesse nela [Sharan] e na ITUC porque desde o começo sentimos que as intenções não são sinceras”, afirma Nasser al-Khater, secretário-geral assistente e operador do torneio no Comitê Supremo para Entrega e Legado, o complicado nome do comitê organizador da competição.
“A sinceridade que o Qatar quer é não ter qualquer respeito pelos direitos fundamentais dos trabalhadores no país”, rebateu Sharan na última semana.
Ela é uma das idealizadores do site “Re-Run the Vote” (Vote de novo, em inglês, http://rerunthevote.org/), que pede nova eleição para sede da Copa de 2022.
“O futebol está virando as costas para o regime de escravidão que existe no Catar. É um dever moral de todos mudar isso”, completa.
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Há várias denúncias sobre condições de trabalho precárias dos trabalhadores envolvidos nas obras para a Copa do Mundo no Catar. O país prometeu mudar essas situação. Isso aconteceu?
SHARAN BURROW – A única coisa que melhorou desde as primeiras denúncias foi o trabalho de relações públicas no Catar. Eles têm se empenhado nisso de forma extraordinária. O governo tem sido totalmente indiferente à vida humana. São contratados operários do Sri Lanka, Sudão, Índia, Coreia do Norte, Nepal… Recebem promessas, são obrigados a pagar taxas para intermediários e depois não recebem salários. Os contratos que assinaram são simplesmente rasgados. Eles moram em locais precários, indignos.
A organização do Mundial no Catar considera que a senhora e a ITUC não são capazes de fazer críticas construtivas e têm objetivos que não são sinceros. Como responde a isso?
Talvez porque nós não nos deixamos levar pelo que eles dizem estarem fazendo e nos preocupemos com o que estão fazendo de fato. A verdade é que mais de uma vez nós oferecemos ajuda e o governo do Catar recusou. Nós queremos que a legislação internacional seja aceita no Catar. Nós queremos que os direitos fundamentais de trabalhadores sejam aceitos no Catar. Eles não querem. Essa é a diferença.
A senhora já esteve no Catar quantas vezes?
Sim, várias vezes nos últimos quatros anos. Eu vi o desespero das pessoas, as condições em que trabalham e vivem, com jornadas de 12 horas por seis ou até sete dias por semana, debaixo de um calor que muitas vezes é insuportável.
A ITUC criou um site para que aconteça uma nova eleição para a sede da Copa do Mundo de 2022. Acha que isso é viável?
O Catar se recusa a legislar dentro das condições de trabalho aceitas internacionalmente. Eles já disseram que com leis trabalhistas não há Copa do Mundo. Se continuam com esse pensamento, tem de acontecer nova eleição. O maior evento esportivo no planeta não pode acontecer sob a sombra de um regime de escravidão moderno.
Defina o uso da palavra escravidão, por favor.
Quando você não tem liberdade para ir e vir, não pode trocar de trabalho livremente e tudo o que lhe pertence é controlado por outra pessoa… A única palavra que eu conheço para definir isso é escravidão.
O maior problema é a kafala [pelas leis do Catar, o trabalhador imigrante só pode trocar de emprego com a autorização da empresa com a qual tem contrato]?
É um grande problema. Mas não é o único. Mas se o governo do Catar abolisse a kafala, estaria respeitando um direito básico de qualquer trabalhador. Não é só isso, claro. As condições de trabalho são precárias. Nós precisamos entender que a Copa no Catar não se trata de construir estádios. É só a ponta do iceberg. O país está construindo uma nova cidade [Lusail] onde será jogada a final, então você pode imaginar a quantidade de obras da infraestrutura e o tamanho da urgência para garantir que os direitos humanos sejam respeitados.
Há um número confiável de mortes em obras de construção relacionados à Copa do Mundo?
Sim. Mas é incompleto. De todos os países que têm cidadãos envolvidos nas obras de infraestrutura, apenas Índia e Nepal divulgaram estatísticas. Somente nesses dois países são quatro mil trabalhadores mortos. Isso a sete anos do início do torneio.
Por causa das denúncias, o governo do Catar contratou uma auditoria independente, feita pela DLA Piper, que recomendou uma série de mudanças que não foram implementadas. Entre elas, o fim da kafala. Se essas medidas tivessem sido colocadas em prática, não existiram mais reclamações?
Não sei. Esta auditoria nunca se tornou pública. Ninguém sabe tudo o que está nela. O que sabemos foi o que o governo do Catar permitiu que soubéssemos. Temos de nos ater aos fatos. A kafala continua em vigor.
As denúncias de corrupção contra Sepp Blatter e a Fifa faz a senhora acreditar mais ou menos na possibilidade de a Copa de 2022 sair do Catar?
A Fifa é uma organização infectada pela corrupção e que sabia desde o início que o Catar não era um lugar seguro para receber uma Copa do Mundo. Todos os que tentaram intervir, inclusive nós, foram afastados do processo. Não fizeram nada e não nos deram qualquer atenção. O futebol é um jogo amado por bilhões e está sendo jogado no lixo. Não são apenas trabalhadores da construção civil. Jogadores de futebol passam pelo mesmo problema. Não recebem salários e não podem trocar de clube ou ir atuar em outro país. É inacreditável que o mundo assista este sistema em vigor e não pare de fazer negócios com o Catar.
Dentro de uma visão pragmática, a senhora crê que a Copa será no Catar?
Não sei. Muita coisa pode acontecer. O que eu sei é que alguém tem de exigir do Catar respeito aos direitos dos trabalhadores, respeito à vida. Você vai querer começar a Copa do Mundo, o maior evento esportivo do planeta, dentro de um sistema que aceita a kafala?
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Exagero
O governo do Qatar discorda que as condições de trabalho para os operários envolvidos nas obras para a Copa de 2022 são ruins.
Nasser al-Khater, diretor de comunicação e marketing do comitê organizador, reconhece que o país está em uma batalha para mudar essa percepção. “Nós trabalhamos com a Anistia Internacional e com organizações de direitos humanos para melhorar as condições de trabalho. São entidades que merecem crédito porque são sinceras”, disse o dirigente à revista britânica “The Blizzard”.
Para ele, as notícias sobre problemas envolvendo operários são exageradas.
A questão da kafala continua sendo a mais crítica. Parte do comitê organizador tinha esperança de anunciar que o sistema seria abolido até o final do ano. Receberam má notícia no último dia 23.
A Shura, o principal conselho consultivo do país, expressou restrições a mudanças na legislação. “Não há pressa para mudar”, disse Mohammed bin Mubarak al-Khulaifi, chefe do conselho.
“É hora de o Qatar mostrar liderança no respeito aos direitos dos trabalhadores. Essa notícia [da ausência de reformas] vai na direção contrária do que esperamos”, declarou a Anistia Internacional.
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Raio-X: Sharan Burrow
Local e data de nascimento: 12 de dezembro de 1954 (60 anos); nascida em Warren, no País de Gales
Ocupação: É secretária-geral da ITUC (Confederação Internacional da União dos Trabalhadores) desde junho de 2010. Antes foi presidente da ITUC e comandou a Confederação Internacional de Sindicatos de Trabalhadores Livres (International Confederation of Free Trade Unions). (Alex Sabino/Folhapress)


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