Quarta-feira, 08 de julho de 2026
Por Redação O Sul | 7 de julho de 2026
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro estão inventando narrativas falaciosas sobre o provável tarifaço dos Estados Unidos para enrolar os eleitores brasileiros, que vão escolher entre os dois no pleito de outubro.
Não há evidências de que Flávio tenha pedido a Donald Trump para aplicar sobretaxas contra produtos brasileiros como diz Lula. Tampouco existe qualquer prova de que Lula provoque o mandatário americano para que ele puna o país como repete Flávio.
Em diversas manifestações públicas, Lula se refere a Flávio e seu irmão Eduardo Bolsonaro, como “traidores da pátria”. Em nota recente nas redes sociais, o presidente disse que a família “defendeu publicamente o aumento de tarifas contra produtos brasileiros”.
Flávio esteve em Washington e se reuniu com Trump e com autoridades americanas. Pediu ao Departamento de Estado para classificar o Comando Vermelho e o PCC como grupos terroristas, ignorando os prejuízos para investigações contra o crime organizado no Brasil.
Eduardo reconhece publicamente que faz lobby pela volta das sanções da Lei Magnitsky, uma espécie de morte financeira, contra o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes.
Flávio está mal assessorado. Ignorou que seu tour pelos EUA – às vésperas da conclusão da investigação da seção 301, que deve resultar na aplicação da sobretaxa de 25% contra produtos brasileiros – poderia trazer a conta política para o seu colo.
Mas não tem responsabilidade efetiva pelas decisões do governo americano e não há sinais de que tenha solicitado um tarifaço contra o Brasil – nem publicamente, nem em privado.
A versão do senador, tentando responsabilizar Lula pelo tarifaço, é ainda mais fantasiosa.
Na segunda-feira (6), Flávio disse que Lula “faz força para que os produtos brasileiros sejam tarifados para que ele possa usar a falsa narrativa da soberania” na eleição. “Lula é o único que quer a tarifa”, disse.
Se o presidente efetivamente obtém ganhos eleitorais com o discurso da soberania, como mostram as pesquisas de intenção de voto, não há qualquer indício de que ele provoque Trump para que o mandatário americano sobretaxe o Brasil. Pelo contrário, nos últimos meses, Lula tentou construir uma “química” com Trump.
No início de maio, os dois estiveram reunidos na Casa Branca a pedido do Brasil. A possibilidade de um tarifaço foi tema central. O presidente brasileiro foi acompanhado de uma comitiva e levou um dossiê detalhado sobre a posição brasileira. Capitaneados pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, vários ministros têm conversado com seus pares americanos.
Para tentar provar sua teoria, Flávio argumenta que o Brasil não mandou representante para a audiência pública do USTR sobre o tema, que ocorre nestas segunda e terça-feiras em Washington.
Trata-se de uma reunião técnica em que entidades do setor privado expõe suas posições para funcionários do segundo e terceiro escalão do governo americano, tentando excluir setores e produtos. Tradicionalmente o governo brasileiro nunca participa. O senador se inscreveu para falar por cinco minutos e o efeito prático de sua participação tende a ser nulo.
A questão central é que nem a “química” de Lula, nem o lobby de Flávio, parecem ser capazes de deter o ímpeto protecionista de Trump, que é global. E, incapazes de segurar o tarifaço, só resta aos dois candidatos culparem um ao outro já que não conseguem resolver o problema. (Opinião por Raquel Landim
Raquel Landim, de O Estado de S. Paulo)
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