Quinta-feira, 14 de maio de 2026
Por Luiz Carlos Sanfelice | 14 de maio de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Desde fins dos anos 70 até meados dos anos 80, ouve um crescimento exponencial de pessoas e famílias que passaram a optar por férias feitas em barracas ou em trailers. Nos anos 90 ‘deu uma murchada’ mas não acabou. Agora, dos anos 2010 para cá, novamente está havendo um aumento significativo em fazer “camping” ou em viajar acampando, só que agora a incidência maior está nos pequenos e médios “motor homes”. No mundo todo.
Nos anos 80 “a febre” eram os trailers, desde o micro até os enormes de 4 rodas, para 7 pessoas, conhecidos como Rubi, Brilhante e Diamante, fabricados pela Turiscar de Novo Hamburgo, com recursos (inclusive ar, micro, tv e som) inteiramente confortáveis e autônomos (luz, água quente, freezer). Comprei um e fomos acampar no mais organizado camping, então frequentado como Camping Tramandai, (nome oficial) mas mais conhecido como “Camping do Loreno”. Tinha estrutura limpa e adequada, sombra, locais de prática de esporte, cancha de bocha e “campo de tiro ao prato” as margens da Lagoa das Custódias, uma lagoa rasa, limpa e cheia de traíras. Era bem policiado e muito bem frequentado.
A área de árvores, campos, e clareiras era enorme. Chegamos e fomos a procura de um lugar adequado para “fincar” nosso trailer visando um espaço abundante e mobilidade pessoal. Eu rebocava o trailer com um possante Alfa Romeo Ti-4. Andando encontramos um único trailer grande igual ao nosso ‘fincado’ numa clareira que formava quase uma pracinha. Tinha outros, mas eram médios e pequenos. Grandalhão como o nosso era só aquele. Esse trailer ficava na posição Norte-Sul. Vi que dava para por o meu em “L” com esse, na posição Leste-Oeste, sem estarem encostados. Procurei o dono que não achou ruim ter companhia. Era uma família de Igrejinha, o casal Erno e Astrid e um casal de filhos. Eles alemães, nós italianos, mas a sintonia foi perfeita.
Ano após ano e os filhos já jovens a caminho de ficarem adultos, se davam bem. As mulheres se acertaram e trocavam receitas e “pratos” onde todos nos deliciávamos. Pescávamos na lagoa, o Erno era exímio lançador de tarrafa, púnhamos espera com boia e pegávamos traíras à noite. Dávamos tiro ao prato e jogávamos Bocha.
Ele, Erno, era caçador de marrecão da patagônia e, na temporada, ele ia com companheiros de Igrejinha e caçavam dezenas e dezenas de marrecões e congelava para então no verão, descongelar quantos iriam usar e preparar deliciosos pratos “dos Deuses” que só de lembrar, hoje, me dá “água na boca”. E a Astrid sabia preparar. Tudo um dia passa e hoje sinto saudades daqueles verões. No final da temporada o Loreno que além de dono do Camping, tinha terras e criação de ovelhas e nos dava uma ovelha inteira “oreada” com a qual fazíamos um churrasco de fogo no chão e num baita churrasco, encerrávamos a temporada. Os anos passaram, o Erno e a Astrid já morreram e agora nossos filhos já alcançaram ou já beiram os 60 anos. Mas…
Tem nisso tudo uma história hilária e cômica que acontecia no dia que eles voltavam para Igrejinha e levavam suas bagagens. O Erno e a Astrid eram fortes comerciantes. O pátio da loja do Erno era enorme (mais de mil metros quadrados) e solto nesse pátio eles criavam galinha (as galinhas se criavam) ‘donas’ do local e tinha de todas as ‘marcas’ – nada de linhagem. Quando chegava o verão e iam pro camping eles levavam uma 10 ou 15 galinhas e as soltavam. Surpreendentemente elas ficavam por ali, ciscando sempre no entorno do trailer. De vez em quando a Astrid ‘puxava’ o pescoço de uma delas para carne do almoço. No final do verão sempre sobrava algumas e tinham que ‘caçá-las’ pra levar. Eram cenas de ‘morrer’ de rir vendo o Erno de tarrafa na mão ‘tarrafeando’ galinhas. E tinha que ser assim se não, não se conseguia pega-las. A Astrid ajudava tentando agrupá-las… e vai que ela encurvada com os braços abertos perto de 2 ou 3 galinhas, o Erno lança a tarrafa ‘com precisão’ e tarrafeia a Astrid junto com as galinhas e foi aquele rolo e gritaria e aquela cena num amontoado de mulher e galinhas se debatendo. A cena não podia ser mais cômica… A gente não sabia, mas um dia foi o último verão que estivemos juntos. Comprei casa na praia e deixamos de acampar. Sinto saudades. Na cidade não tem lagoa, não cancha de bocha, não tem tiro ao prato… tem outras coisas, mas não aquelas.
* Luiz Carlos Sanfelice – lcsanfelice@gmail.com
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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