Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Alexandre Teixeira de Castilhos Rodrigues | 22 de outubro de 2025
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Entre prisões políticas e riquezas naturais esquecidas, a América do Sul assiste à luta de uma mulher que se tornou símbolo da liberdade e dos direitos humanos.
Há nomes que atravessam fronteiras e tempos porque carregam consigo a chama da coragem. María Corina Machado é um desses nomes. Nascida em Caracas, em 7 de outubro de 1967, em meio a livros e aço — filha de mãe psicóloga e pai empresário do ramo siderúrgico — cresceu sob a sombra de um país que, apesar das riquezas, foi sendo moldado pela mão pesada dos regimes autoritários. O império familiar foi nacionalizado durante o governo de Hugo Chávez, e talvez ali tenha começado a despertar a chama da inconformidade que a levaria a desafiar o poder.
Formou-se engenheira na Universidade Católica Andrés Bello, fez pós-graduação em finanças e aperfeiçoou-se no programa World Fellows, da Universidade de Yale. Mas antes de ser política, foi humana: atuou na Fundação Atenea, dedicada à reintegração social de crianças de rua. A política viria depois, como consequência natural de quem enxerga o sofrimento alheio não como estatística, mas como dor.
Eleita para o Congresso Nacional representando o estado de Miranda, ganhou notoriedade em 2011 ao confrontar diretamente Hugo Chávez em pleno Parlamento. Poucos tiveram tamanha ousadia. Sua candidatura presidencial, em 2012, não prosperou, mas sua voz tornou-se símbolo da oposição e resistência.
Em 2014, após liderar protestos contra Nicolás Maduro, foi acusada de conspiração e traição. Dez anos depois, em 2024, a Suprema Corte venezuelana a desqualificou de exercer cargos públicos por 15 anos — uma pena política travestida de legalidade. Mesmo assim, venceu as primárias da oposição e foi novamente impedida de disputar as eleições presidenciais.
O destino, no entanto, parece ter reservado a ela um palco maior. Em 2024, recebeu o Prêmio Václav Havel de Direitos Humanos e o Prêmio Sakharov, ao lado de Edmundo González. E em 10 de outubro de 2025, o mundo ouviu o anúncio que ecoou como justiça tardia: María Corina foi agraciada com o Prêmio Nobel da Paz.
O comitê norueguês destacou sua coragem civil frente à repressão e sua luta pacífica pela transição democrática na Venezuela. É um reconhecimento não apenas pessoal, mas simbólico: um grito por liberdade em uma América Latina que, entre o populismo e a corrupção, parece caminhar em círculos.
Hoje, María Corina vive na clandestinidade. A incerteza de sua presença na cerimônia de Oslo, em 10 de dezembro, é o retrato de um continente onde defender a liberdade ainda é um ato de risco. Sua inclusão na lista de vencedores do Nobel a coloca ao lado de gigantes como Martin Luther King, Madre Teresa de Calcutá e Nelson Mandela — todos perseguidos, todos vitoriosos.
Mas há algo de profundamente sul-americano nesse drama. Somos um continente de solo fértil e fome persistente; de petróleo e apagões; de florestas abundantes e corações empobrecidos. Entre rios, montanhas e minérios, seguimos sendo ricos em tudo — menos em humanidade política. A cada década, trocamos tiranos de discurso, mas não de essência.
O Nobel concedido a María Corina é mais que um prêmio: é um espelho. Reflete a América Latina como ela é — generosa em recursos, mas refém de seus próprios fantasmas. Mostra que, mesmo em meio ao medo, ainda há quem ouse ser voz.
Os regimes autoritários não temem as armas; temem as ideias. E quando uma mulher se levanta para desafiar o silêncio, o poder treme. Talvez por isso ela viva escondida — porque quem fala a verdade na América do Sul corre mais perigo do que quem a nega.
O mundo espera ouvir seu discurso em Oslo. E a pergunta que ecoa, como um sussurro entre os Andes e o Caribe, é inevitável: será que María Corina chegará viva para receber o prêmio?
Seja qual for a resposta, seu nome já está gravado na história. Porque há pessoas que nascem para reinar sobre o medo — e transformar dor em esperança. E, enquanto houver uma mulher em Caracas, Buenos Aires ou Brasília disposta a lutar por justiça, a América do Sul ainda terá salvação.

* Alexandre Teixeira G. de Castilhos Rodrigues, advogado e escritor.
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
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