Sexta-feira, 27 de Novembro de 2020

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Brasil Médica brasileira contraiu o coronavírus e foi salva pelo método de ventilação que ela própria criou

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A intubação da pneumologista da USP Carmen Valente Barbas abalou a moral de médicos que combatiam coronavírus recém-chegado ao Brasil. (Foto: Arquivo Pessoal)

Em meados de abril, o conceituado patologista da Universidade de São Paulo (USP) Paulo Saldiva falava ao vivo na TV sobre a epidemia de Covid-19 quando não se conteve e começou a chorar em frente às câmeras.

“Naquela época, tinha gente negando a existência ou minimizando o impacto da doença, então fui dizer para as pessoas se cuidarem porque nós da saúde estávamos pagando um preço alto. Aí lembrei-me da Carmen e de outras pessoas queridas e me descontrolei um pouco”, diz Saldiva, médico e professor com 40 anos de experiência.

Para muitos na comunidade de médicos atuando nos fronts de batalha contra a Covid-19 no País, o choro de Saldiva talvez dispensasse explicação.

A notícia da internação da pneumologista Carmen Valente Barbas circulara dentro e fora do Brasil, abalando a moral das tropas na guerra contra um inimigo pouco conhecido.

Isso porque a médica dos hospitais das Clínicas e Albert Einstein, pesquisadora e professora com 60 anos de idade e mais de 35 de carreira, é uma sumidade internacional em ventilação mecânica, usada no tratamento de casos graves de Covid-19.

Confira a história de como uma mulher que dedicou a carreira a salvar vidas e formar médicos teve sua vida salva pelas técnicas que ajudou a criar – e pelos médicos que treinou.

Reconhecimento internacional

Filha do também pneumologista e ex-professor da Faculdade de Medicina da USP João Barbas Valente, Carmen seguiu os passos do pai. Ela se formou na USP e ali iniciou, em 1995, seu doutorado em ventilação mecânica.

Em 1998, um estudo clínico liderado por ela e pelo colega Marcelo Amato foi publicado na “New England Journal”, revista científica americana de grande impacto.

Até então, as chances de um paciente com doença pulmonar aguda morrer ao receber ventilação mecânica eram altas.

Em sua pesquisa, Carmen e seu grupo levantaram a hipótese de que a própria ventilação pudesse estar danificando o pulmão dos pacientes.

“Estávamos estudando a ventilação mecânica em pacientes com Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo, a SDRA”, diz Carmem à BBC News Brasil. “Na época, a mortalidade dessa síndrome era 70%, então, todo mundo que trabalhava em terapia intensiva ficava desanimado, porque você ventilava o paciente e 70% deles morriam.”

Naquele tempo, explica, pacientes com a síndrome eram ventilados com o mesmo volume corrente – o volume de ar que entra e sai do pulmão durante a ventilação mecânica – usado em cirurgias.

Carmen e seu grupo passaram a ventilar esses pacientes com um volume corrente mais baixo, entre outros ajustes.

Ao final do estudo clínico, o número de mortes entre pacientes tratados com a nova técnica caiu para 40%. Em 2000, um grande estudo americano confirmou, também na New England Journal, que a abordagem do grupo da USP era muito melhor.

Desde então, o índice de mortes de pacientes com SDRA caiu ainda mais, para 30%. E a equipe liderada por Carmen e Amato ganhou voz internacional, ajudando a transformar a ventilação mecânica no mundo.

A técnica é conhecida hoje como Ventilação Protetora Pulmonar.

O que Carmen talvez jamais esperasse é que um dia seria salva por essa técnica.

Em março de 2020, médicos brasileiros começavam a se dar conta de que o novo coronavírus era realmente perigoso.

“Estudando vírus desde muitos anos, a gente vê que esse novo vírus é muito diferente, muito agressivo, sobrevive em temperaturas muito altas, o que não é normal para vírus respiratórios”, diz Carmen.

Ela conta que chegou até a escrever um artigo para a Sociedade Paulista de Terapia Intensiva esclarecendo a população sobre o coronavírus.

Por sua idade, e por ser hipertensa, Carmen estava no grupo de risco.

Os primeiros sintomas apareceram no dia 19 de março.

“Comecei a ter um pouquinho de dor de garganta, um pouquinho de tosse, uma dor no corpo bastante importante.”

Ela não estava cuidando de pacientes com coronavírus. Mas começou a ficar muito cansada.

Carmen foi ao hospital pedir para ser testada. Sem os sintomas clássicos – não tinha febre nem oxigenação baixa – teve de insistir.

Carmen foi para o hospital Albert Einstein. Inicialmente, seu estado não era crítico, então foi encaminhada à enfermaria. Mas como é comum em pacientes com Covid-19, seu quadro se agravou rapidamente.

“Fui internada no dia 27 à noite. Dia 29 de manhã já me levaram para a UTI e me intubaram porque eu estava com um quadro de insuficiência respiratória grave.”

Ela tinha dedicado a carreira aos pacientes, ao ensino e à ciência. Agora, Carmen confiava sua própria vida à técnica que ajudara a desenvolver e aos médicos que treinara.

Carmen Valente saiu da ventilação mecânica após uma semana, mas continuou internada mais 18 dias. Ela recebeu alta do hospital no dia 20 de abril. No início de junho, sem apresentar sequelas, mas ainda fazendo fisioterapia, voltou ao trabalho.

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