Quarta-feira, 20 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 24 de fevereiro de 2026
Data centers no Brasil poderão deixar de pagar impostos para importar equipamentos avançados caso um projeto discutido no Congresso seja aprovado. Batizado de Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center), ele suspende tributos federais ao setor em troca de contrapartidas
O benefício começou a valer em janeiro por meio de uma medida provisória publicada em 2025 e com validade até esta quarta-feira (25). Para continuar em vigor, o texto precisa ser transformado em lei.
Um data center (“centro de dados”, em inglês) é um local que armazena e processa informações. Entre os tipos, estão os de nuvem (cloud), que operam serviços online, e de inteligência artificial, que treinam modelos de linguagem complexos.
Defensores alegam que a suspensão do imposto de importação para data centers fará o Brasil se tornar um polo digital e depender menos da infraestrutura estrangeira.
A avaliação é de que o país se tornará mais competitivo se empresas tiverem menos custos para comprar equipamentos avançados, geralmente fabricados na China.
Mas críticos apontam que, em vez de trazer melhorias concretas para o país, a medida levará a um consumo desenfreado de energia por essas instalações.
Um levantamento feito pelo g1 apontou que quatro projetos de data centers de IA no Brasil poderão ter consumo de energia equivalente ao de 16,4 milhões de casas.
O Redata é uma política que suspende tributos federais cobrados sobre o faturamento e a importação de equipamentos por data centers.
Ela vale para todas as instalações que cumprirem as seguintes contrapartidas:
– destinar ao menos 10% da capacidade de processamento para tratar dados do mercado brasileiro;
– consumir somente energia elétrica de fontes limpas ou renováveis;
– destinar 2% do valor dos equipamentos comprados para projetos de pesquisa no Brasil;
– manter índice de gasto de água de até 50 mL por quilowatt-hora consumido.
A isenção de impostos vale por cinco anos e pode ser suspensa, com exigência de pagamento retroativo, em caso de descumprimento de regras ambientais e de investimentos.
O Ministério da Fazenda disse que é possível observar um aumento do interesse de investidores pelo Brasil como destino para projetos de data centers.
“Esse movimento tem sido evidenciado, por exemplo, pelo crescimento no número de pedidos de conexão à rede elétrica e de solicitações de infraestrutura energética, conforme reportado pela imprensa”, afirmou, em nota.
A pasta afirmou que há diversos projetos que aguardam a consolidação do marco legal para serem implementados, mas que ainda não há impactos concretos para o setor porque a política está em vigor há menos de dois meses.
A transformação da medida provisória em uma lei permanente é necessária para dar segurança às empresas investirem, defendeu Eduardo Menossi, fundador da EBM Engenharia, especializada na construção de data centers.
“Todo mundo está esperando sem fazer nada porque tem medo de a lei mudar ou de fazer um investimento e a coisa não acontecer. O mercado está parado aguardando”, afirmou.
Mas o texto atual não tem contrapartidas suficientes para serem cumpridas por empresas, alegou Luã Cruz, coordenador de Telecomunicações e Direitos Digitais do Instituto de Defesa de Consumidores (Idec).
“O governo está fazendo esforço para aprovar algo que não trará grandes benefícios para a ciência e a tecnologia brasileira. E a gente vai continuar dependente dessas grandes infraestruturas”, avaliou.
A redução dos impostos é fundamental para permitir que mais empresas construam data centers no Brasil e tornar o país mais competitivo nesta área, disse Menossi.
“É muito dinheiro para colocar um data center de pé. Com data centers para cloud, já era um esforço grande. Quando a gente desenha o posicionamento do Brasil para receber data centers de inteligência artificial, a conversa muda de figura”, afirmou.
Os data centers de IA são mais caros porque exigem um longo treinamento de modelos de linguagem com equipamentos mais avançados, que ficam instalados em armários conhecidos como racks.
Segundo Menossi, preencher um rack com equipamentos para um data center de IA custa cerca de quatro vezes o valor de um armário de um data center para cloud.
Como processam mais informações, os equipamentos consomem mais energia. Mas, em seu Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, o governo federal defendeu que a ampla oferta de energia renovável é uma das vantagens do país.
“Aqui nós temos energia barata, abundante e renovável. Quando temos discussão em termos de custo de energia, o Brasil dá banho em quase todo o mundo”, afirmou Menossi, da EBM Engenharia.
O governo federal reconhece que data centers têm um consumo massivo de energia e estima que, para atender aos novos projetos, a carga energética precisa crescer 600% até 2037.
Em espaços voltados para IA, os equipamentos esquentam muito e dependem de um sistema de refrigeração adequado, que pode ser abastecido com água.
Para manter o uso de água sob controle, o Redata prevê um índice de eficiência hídrica. As empresas que desejarem a isenção de impostos federais deverão, entre outras exigências, consumir até 50 mL por quilowatt-hora consumido.
O Scala AI City, um dos projetos já anunciados para o Brasil, projeta potência de 1.800 megawatts.
No limite, um data center poderia seguir com os benefícios do Redata e usar 90 mil litros de água por dia, equivalente ao consumo de cerca de 560 pessoas no Brasil.
A comparação leva em conta o consumo diário de 159,9 litros por habitante, segundo dados divulgados em 2024 no relatório do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa), vinculado ao Ministério das Cidades.
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