Sexta-feira, 18 de Setembro de 2020

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Edson Bündchen Miopia viral

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Há uma evidente e tediosa fadiga da população em relação aos reflexos da atual pandemia da Covid-19. Sem ainda chegar ao seu platô, em termos mundiais, o vírus mortal continua a sua trajetória, em alguns países já ameaçando com uma segunda onda.

No Brasil, assistimos a um outro fenômeno que precisa ser superado para que os efeitos da doença não sejam ainda piores. Trata-se da negação de fatos evidentes diante de uma nova realidade que se impõe, dentre os quais destacam-se os cuidados necessários para a proteção contra a doença, e a adaptação às mudanças no modo como trabalharemos e viveremos no pós-pandemia. Sem que haja um correto entendimento sobre o alcance e o potencial das transformações provocadas pela Covid-19, o posicionamento de pessoas e organizações tende a ser errático, tornando o amanhã ainda mais ameaçador.

A negação da realidade tem a ver com o impulso humano para contestar verdades, muitas vezes dolorosas demais para serem confrontadas. Seria, nas palavras de George Orwell, uma espécie de estupidez protetora, uma autodefesa que ocasionalmente usamos para nos esquivar de problemas ou gerenciar determinada situação. A miopia, seja ela individual ou corporativa, afeta a capacidade de julgamento, oblitera o bom raciocínio e pode levar negócios à falência. No mundo corporativo, são clássicos os exemplos de miopia empresarial que afetaram e até liquidaram companhias como a Xerox, Sears, Kodak, Hewlett-Packard e muitas outras. Seus efeitos, tomando como parâmetro um país, podem ser ainda mais devastadores. A negação grupal de um determinado fato não é uma ocorrência comum. Para que aconteça, é preciso que haja desinformação, baixo nível de entendimento, fraco poder de liderança e pouca coesão social, elementos presentes no cenário local, onde milhões de brasileiros continuam subestimando os efeitos da atual pandemia.

Diariamente, assistimos a discursos ainda contraditórios, muitos deles carregados por indisfarçáveis interesses políticos partidários, narrativas já vencidas no tempo sobre uma hipotética dicotomia entre saúde e economia, e até médicos em dúvida quanto ao melhor tratamento a ser receitado. Inacreditavelmente, passados mais de cinco meses desde a chegada da doença, ainda não vemos uma ação coordenada e integrada entre os poderes federal e estadual. Esse quadro, além de desalentador, tem provocado prejuízos no atendimento à população, especialmente a mais necessitada.

No meio de toda essa confusão e falta de articulação, observamos uma população carente de orientações seguras, milhares de empresários desesperados por verem sucumbir seus sonhos, e uma polarização crescente entre a ciência, a pseudociência e o obscurantismo. É como se estivéssemos separados por uma falta de compreensão deliberadamente obstinada em negar os fatos, trazendo mais insegurança e incerteza a um ambiente já insuportavelmente complexo e instável.

Diante de um horizonte incerto e ameaçador ainda pela frente, é imperioso avançarmos sobre eventuais ranços, sobre os ressentimentos, sobre o uso ou não de determinados medicamentos, sobre a falsa divisão entre saúde e economia e, principalmente, despolitizar o tema e permitir a construção de soluções efetivas. É preciso discernimento e coragem para esse necessário e inadiável enfrentamento. Nosso País sairá dessa crise a partir de sua capacidade de unir-se, mesmo que tardiamente, para a construção de um consenso que afaste a negação e a miopia, e incorpore a esperança de um futuro plural e coletivamente construído. Isso deve ocorrer, não pela negação, não também pela omissão ou falta de compreensão, mas através do entendimento, do diálogo e da valorização da ciência e do bom senso.

 

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