Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 3 de setembro de 2015
Quantos morangos existem em um potinho de iogurte de morango? Quais são os outros termos usados para indicar a adição de açúcar em um produto? A versão light é sempre mais saudável?
A onda de blogs e páginas em redes sociais que desvendam letras miúdas e ingredientes de nomes difíceis nas embalagens de alimentos, iniciada na Inglaterra e nos EUA, está também se espalhando no Brasil. Os criadores dos portais fazem um trabalho de detetive, muitas vezes consultando artigos científicos e regulamentações internacionais, além de encherem de perguntas os SACs (serviço de atendimento ao cliente) das fabricantes.
Criado em julho de 2013, o blog e canal no YouTube “Do campo à mesa” foi um dos pioneiros no Brasil. Em vídeos curtos, a jornalista Francine Lima “traduz” para o público leigo as muitas vezes complexas informações nutricionais das embalagens de alimentos.
“São coisas às vezes simples, mas que as pessoas não se dão conta. Eu sempre digo: leia a lista de ingredientes e saiba que ela está em ordem decrescente. Se começou com açúcar, vá procurar algo mais saudável”, explica Francine, que grava os vídeos na cozinha de casa. Entre os de maior sucesso estão a “investigação” sobre a quantidade de morango nos iogurtes e a diferença entre suco e néctar.
O site Fechando o Zíper vai ainda mais fundo. Comandado por duas nutricionistas e um cientista da computação, faz uma avaliação detalhada de rótulos e embalagens, a maioria enviada pelos leitores, mostrando que muitos dos alimentos que se apresentam como opções mais saudáveis não são, na verdade, tão positivos assim.
Além de esmiuçar ingredientes, o grupo atribui uma nota de zero a dez para os alimentos. “Não condenamos nada. O objetivo é que o público leigo consiga identificar se aquilo está de acordo com alguma necessidade”, diz Samantha Peixoto, criadora do site.
No exterior, a mais conhecida detetive de rótulos é a americana Vani Hari, mais conhecida como Food Babe. Com mais de 30 milhões de visitas em 2014, ela foi eleita neste ano pela revista Time uma das 30 personalidades mais influentes da internet.
Com títulos chamativos como “o veneno que damos às nossas crianças”, Vani conquistou fãs, que costumam se mobilizar em petições virtuais para a retirada de componentes por eles considerados ruins. Pelo menos cinco marcas dos EUA já se renderam à mobilização do blog.
No Brasil, a pressão é menor, mas sites e campanhas estão tentando reproduzir a experiência americana. A especialista em vigilância sanitária da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) Simone Coulaud afirma que a agência acompanha essas manifestações, e que a sociedade tem um papel importante na discussão.
De acordo com o engenheiro de alimentos Mário Roberto Maróstica Junior, a discussão sobre alimentos é bem-vinda, mas é preciso estar atento ao embasamento e à formação de quem produz esse conteúdo. “A gente tem de tomar cuidado com o que lê. Generalizar as coisas é difícil. É mentira que produtos industrializados são sempre ruins. Esse tipo de generalização tem de ser visto com cuidado.”
Henrique Suplicy, endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, destaca que as informações dos rótulos no Brasil melhoraram, mas ainda deixam a desejar. Apesar disso, ele acredita que há certo alarmismo em muitos sites.
A Abia (Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação) informou que alerta seus membros para o cumprimento da legislação vigente e a importância de manter canais de contato com o consumidor. A entidade ressaltou a importância dos blogs, mas disse se preocupar com algumas informações veiculadas neles. (Folhapress)
Os comentários estão desativados.