Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 7 de setembro de 2018
O presidente Michel Temer afirma que “apanhou como ninguém”, mas acredita que a história o verá como reformador. A 115 dias do final de seu governo, Temer decidiu passar a responder a cada crítica que recebe. Passou a publicar vídeos nos quais rebate candidatos que falam mal de seu governo. “Não vou ser a Geni”, disse em referência à personagem da Ópera do malandro, de Chico Buarque, “que é feita para apanhar, que é boa de cuspir”.
Michel Temer concedeu entrevista à revista “Época” no Palácio do Planalto na manhã de quinta-feira, três horas antes do atentado ao candidato Jair Bolsonaro — esfaqueado por durante uma passeata eleitoral em Juiz de Fora— episódio que ele qualificou de “intolerável” no fim da tarde.
Naquele dia também os jornais davam conta da conclusão do inquérito da Polícia Federal, apontando indícios de que Temer teria recebido da empreiteira Odebrecht propinas de ao menos R$ 1,43 milhão por meio de intermediários. O presidente se disse injustiçado e recusou-se a responder se tem medo de ser preso. Ele reclamou de que os candidatos têm mentido durante a campanha eleitoral, refutou que tenha articulado um golpe contra a presidente Dilma Rousseff e prometeu uma transição tranquila a quem quer que seja eleito para lhe suceder.
Aos 77 anos, Temer diz que pretende se aposentar depois de concluir seu mandato. Veja trechos da entrevista:
1) Como recebeu a conclusão de inquérito da Polícia Federal que aponta indícios de corrupção e lavagem de dinheiro contra o senhor? O inquérito cita jantar ao qual o senhor compareceu para negociar dinheiro para campanha com representantes da Odebrecht.
Vejo contradições. O jantar foi no final de maio, quando, esclareço, o Marcelo Odebrecht quis me procurar para dizer que ele queria fazer contribuição para vários candidatos a governador, senador, deputados. E ele queria fazer contribuição oficial e fazê-la para o partido. É claro que ele queria mais ou menos carimbar o senador, o deputado. O candidato pedia e entrava no partido. Isso foi no final de maio. Eu li um pequeno trecho, não li todo [o inquérito].
2) Não leu?
Não tenho mais vontade. Sou religioso. Juro. Perdi a vontade de ler essas coisas. Para mim, é uma coisa secundária, porque aqui são todos os problemas. Quando tiver tempo, talvez em um final de semana, eu leia. Mas peguei o pequeno trecho que diz que o jantar gerador desse inquérito ocorreu ao final de maio. Entretanto, alega-se que, no meio de março, houve pagamentos um, dois, três. Qual é a relação lógica entre o jantar que se deu dois meses depois e o pagamento de verbas? São incoerências e contradições que não quero comentar agora. Esta será uma matéria de alegação de defesa. Isto se dará no processo.
3) O senhor tem medo de ser preso?
Não vou responder à sua pergunta. Se me permite uma possível indelicadeza, porque ela se constitui em um insulto.
4) O senhor apanha diariamente. Como lida com isso?
Você tem um longo tempo de jornalismo. Já viu alguém apanhar como eu apanhei? Com certo ódio. Com uma animosidade.
5) A ex-presidente Dilma Rousseff (PT) também apanhou assim.
Não sei se tanto. Porque o meu problema, o que me incomoda, não é o foco político. O que me incomoda é a questão moral.
6) O senhor cansou de apanhar calado, é isso?
Não vou ser Judas e tampouco vou ser Geni. Apanhei muito, como ninguém apanhou. Tive uma vida, convenhamos, profissional, na educação universitária. Tenho livros que venderam mais de 400 mil exemplares, produções literárias. Tive uma vida política, convenhamos. Três vezes presidente da Câmara dos Deputados. Quando é que tentaram “desgraçar” a minha vida? Quando assumi a Presidência da República. Estou absolutamente tranquilo.
7) O senhor tem a maior rejeição de um presidente (78% acham o governo ruim ou péssimo) na história. Como lida com isso?
A rejeição é fruto dessa tentativa de destruição. As pessoas me respeitavam muito. Aliás, não acho que eu perdi o respeito das pessoas. Fiz muito pelos Estados e pelos municípios. Os deputados e senadores dos vários Estados que vêm aqui dizem: “Os prefeitos do meu Estado dizem que nunca houve um presidente que prestigiasse tanto os municípios como você’”.
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