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Mundo Nos Estados Unidos de Donald Trump, o inimigo do meu inimigo é meu amigo

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Ex-presidente George W. Bush, ex-primeira-dama Laura Bush, ex-presidente Bill Clinton e ex-secretária de Estado Hillary Clinton, em cerimônia em memória de John McCain. (Foto: Reprodução)

O marcante funeral do senador John McCain, há quatro semanas, foi considerado pela revista norte-americana New Yorker como “o maior encontro da resistência contra Donald Trump”. Sentados lado a lado, Bill Clinton, George W. Bush, Barack Obama e Dick Cheney compartilhavam não apenas respeito ao herói de guerra morto por câncer, mas representavam “a boa política” contra o atual presidente, que foi proibido de ir à cerimônia por vontade expressa de McCain à família. A imagem do ex-presidente Bush dando um doce à ex-primeira-dama Michelle Obama se tornou viral, um sinal de que antigos antagonistas políticos poderiam conviver bem.

Mas o que para muitos representou uma prova de civilidade e respeito entre líderes de partidos diferentes, para outros foi o indício de um pragmatismo democrata que pode ser perigoso: como o ex-presidente Bush é oponente de Trump, foi “acolhido” pelos principais progressistas. Para criticar Trump, “esquecem” da gestão do republicano que antecedeu Obama, acusado de ter iniciado duas guerras que custaram milhares de vidas e trilhões de dólares, além de ter criado as condições para a crise financeira global de 2008. A lógica que parece prevalecer em muitos democratas agora é: o inimigo do meu inimigo é meu amigo. Mesmo que, até então, ambos tivessem grandes diferenças.

“Há uma tendência de romantizar até mesmo os piores republicanos simplesmente porque não são pró-Trump. Isso é um grave erro”, disse ao jornal O Globo Daniel Kovalik, ativista de direitos humanos e professor da Faculdade de Direito da Universidade de Pittsburgh, Pensilvânia.

Confusão ideológica

A própria visão de que McCain era um líder respeitado pela esquerda cresceu quando ele se tornou a voz mais crítica contra Trump. Até então, muitos o viam como um militarista, que na disputa presidencial contra Obama coroou o movimento de extrema direita Tea Party com a escolha de Sarah Palin para vice. Outra prova deste movimento, na opinião do especialista, é que hoje a aprovação dos dois mandatos de George W. Bush, que quando deixou a Casa Branca era de 39%, está em 61%. Entre eleitores que se dizem democratas, a aprovação do republicano passou de 11% em fevereiro de 2009 para atuais 54%. Para Kovalik, isso pode levar o eleitorado a se contentar com qualquer candidato presidencial.

“Isso pode até incluir aceitar Mike Pence como presidente, embora, na minha opinião, ele seja muito mais perigoso do que Trump”, disse. “Isso mostra a absoluta falta de princípios por trás da resistência anti-Trump. Essa falta de princípios políticos e morais assombrará o cenário político dos EUA, e essa insensatez poderá assombrar os EUA por muitos anos.”

Em um recente artigo na “The Atlantic”, o colunista e professor Peter Beinart afirmou que, enquanto os Estados Unidos debatem a força da esquerda dentro do Partido Democrata – fruto do movimento encabeçado pelo pré-candidato de inclinações socialistas Bernie Sanders -, a legenda mostra-se perdida ideologicamente em alguns pontos importantes, como na política externa. Em muitos casos, os democratas estão defendendo opiniões que, anteriormente, era típicas dos “falcões republicanos”.

“Em meio a toda a conversa sobre o movimento do Partido Democrata para a esquerda, um fenômeno contrário passou relativamente despercebido: na política externa, os democratas de Washington continuam atacando Donald Trump pela direita”, escreveu ele.

No texto, Beinart lembra que em junho o líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, repreendeu Trump por se encontrar com o ditador norte-coreano, Kim Jong-un. Mas seu partido sempre foi favorável ao diálogo. E que líderes da legenda criticam agora a falta de ações militares mais efetivas na Síria, embora historicamente os democratas tenham se posicionado a favor de soluções pacifistas.

Como o FBI agora está no pé de Trump com as investigações sobre a trama russa, democratas pararam de criticar a instituição e alguns de seus líderes neste governo, embora sejam pessoas que, no passado, eram associadas a práticas duras de interrogatório e redução das liberdades individuais, avaliou Jackson Lears, professor de história na Rutgers University, em Nova Jersey, em recente artigo no britânico “The Guardian”.

Mas nem todos concordam com esta avaliação. Simon Rosenberg, presidente e fundador da Nova Rede Democrata (NDN, na sigla em inglês), afirma que as diferenças partidárias seguem fortes – como mostrou a batalha pela nomeação de Brett Kavanaugh, indicado por Trump para a Suprema Corte.

“Não há heróis no Partido Republicano”, disse Rosenberg.

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