Sexta-feira, 29 de agosto de 2025
Por Redação O Sul | 28 de agosto de 2025
A vacinação contra herpes-zóster está associada a um risco menor de ataque cardíaco e acidente vascular cerebral (AVC), de acordo com um estudo apresentado nessa quinta-feira (28), no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia de 2025, realizado em Madri, na Espanha. Trata-se da primeira revisão sistemática global da literatura e meta-análise a avaliar de forma abrangente as evidências sobre a associação entre a vacinação contra herpes-zóster e eventos cardiovasculares.
“Analisamos as evidências disponíveis atualmente e descobrimos que, nesta análise, a vacinação contra herpes-zóster foi associada a um menor risco de eventos cardiovasculares, como ataques cardíacos ou AVCs. Mais estudos são necessários para descobrir se essa associação pode ser atribuída a um efeito da vacinação contra herpes-zóster”, diz o autor do estudo, Charles Williams, diretor médico associado global de Assuntos Médicos Globais – Vacinas da GSK, em comunicado.
O estudo baseou-se em uma revisão sistemática global da literatura que utilizou três bases de dados de literatura científica, e uma meta-análise de ensaios clínicos randomizados de fase 3 e estudos observacionais que avaliaram o efeito da vacinação contra herpes-zóster em eventos cardiovasculares. No total, 19 estudos foram incluídos na revisão e um ensaio clínico randomizado.
Os resultados mostraram que a vacinação contra herpes-zóster, tanto com a vacina recombinante (RZV) quanto com a vacina viva atenuada (ZVL), foi associada a uma redução de 18% e 16% no risco de eventos cardiovasculares em adultos com 18 e 50 anos ou mais, respectivamente. Em estudos que relataram o risco absoluto de eventos cardiovasculares, a diferença absoluta na taxa variou de 1,2 a 2,2 eventos a menos por mil pessoas-ano.
“Quando olhamos apenas o número, uma redução de 16% ou 18% no risco pode parecer pouco, mas na verdade, isso representa muita coisa porque a carga das doenças cardiovasculares é muito alta. Nesse contexto, qualquer redução do risco se traduz em diminuição de mortalidade, visitas de emergência e complicações cardíacas”, diz o infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), que não esteve envolvido no novo estudo.
Apesar dos resultados, Williams ressalta que como quase todas as evidências vieram de estudos observacionais, não é possível inferir uma associação de causalidade entre a vacina e a redução dos eventos cardiovasculares. Para isso, são necessárias mais pesquisas.
Kfouri explica que não é a primeira vez que vemos vacinas prevenindo infarto e AVC. Uma diretriz recente da Sociedade Europeia de Cardiologia destaca que a vacinação contra a gripe, por exemplo, reduz em até 60% o risco de infecção e está associada a uma queda de 30% nos eventos cardiovasculares mais graves.
Tanto que essa diretriz da Sociedade Europeia de Cardiologia afirma que vacinas contra vírus e bactérias podem ser aliadas no combate às doenças cardiovasculares da mesma forma que o controle da hipertensão, colesterol e diabetes.
“Os mecanismos para essa proteção ainda não são tão claros. Mas sabemos que infecções virais promovem uma inflamação generalizada. Para quem já tem alguma predisposição, isso pode servir como um gatilho para desenvolver complicações posteriores”, explica o médico.
Essa também não é a primeira vez que um estudo mostra o impacto da vacinação contra herpes-zóster em condições que vão além da condição em si. Um trabalho publicado em 2024 na revista científica Nature Medicine mostrou que o imunizante pode reduzir risco de demência.
Neste caso, o estudo foi feito com a vacina Shingrix (produzida pela farmacêutica GSK). Os resultados mostraram que o imunizante conseguiu reduzir o risco de demência em 17% em comparação com a Zostavax (da farmacêutica MSD), e teve um efeito de torná-lo 23–27% menor quando comparada às outras vacinas, em um período de seis anos após sua aplicação.
As hipóteses para esse benefício aparente na proteção contra a demência incluem o fato de que o herpes-zóster pode aumentar o risco de demência e, portanto, ao inibir o vírus, a vacina pode reduzir esse risco ou ainda que a vacina contém produtos químicos que podem ter efeitos benéficos separados na saúde do cérebro.
“A gente junta cada vez mais argumentos para fazer as pessoas se vacinarem durante todo o ciclo de vida. Com as vacinas, tivemos uma grande redução na mortalidade infantil, aumentamos a expectativa de vida em pelo menos 20 a 30 anos. As doenças infecciosas voltam a ter um impacto na letalidade e qualidade de vida da população mais velha e, de novo, as vacinas passam a desempenhar um papel nessa população e estão no cardápio de bem-estar e longevidade”, pontua Kfouri.
O herpes-zóster é causado pela reativação do vírus varicela-zóster, o mesmo que causa a catapora. Após a infecção primária, o vírus permanece latente no sistema nervoso e se reativa, causando herpes-zóster em cerca de um em cada três indivíduos ao longo da vida. O vírus também pode invadir vasos sanguíneos grandes e pequenos na cabeça, o que pode levar à inflamação e à remodelação vascular. Acredita-se que isso possa levar a complicações como derrame após a reativação do vírus no organismo. As informações são do jornal O Globo.