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Colunistas Novos tempos, novos riscos

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(Foto: Reprodução)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Na última coluna falamos sobre novos tempos e novos hábitos. Hoje, precisamos avançar para um tema que incomoda e preocupa: os riscos que a sociedade brasileira está presenciando e a forma como estamos — ou não — sendo protegidos.

Em diversos países, governos têm tomado medidas firmes contra práticas que colocam em risco a saúde mental e financeira da população. Jogos e apostas online, conhecidos como “bets”, já foram alvo de restrições severas em lugares onde se percebeu o impacto devastador sobre famílias inteiras. O vício em apostas não é apenas uma questão individual: é um problema coletivo, que gera endividamento, destrói lares e, em casos extremos, leva ao suicídio.

No Brasil, porém, o cenário parece outro. Basta caminhar pelas ruas para ver outdoors gigantes convidando para apostar “como se fosse mágico”. Nas fachadas de prédios, nas telas da televisão, nas redes sociais, o apelo é constante. E não se trata de propaganda qualquer: são campanhas milionárias, financiadas por empresas que encontraram na fragilidade regulatória brasileira um campo fértil. Jogadores de futebol, comunicadores e artistas emprestam suas imagens para legitimar um mercado que cresce sem freios.

O resultado é visível. A Receita Federal já mostrou que a poupança do brasileiro desapareceu, enquanto o grau de endividamento aumentou. Pessoas adoecem, famílias se desestruturam, e alguns chegam ao extremo de tirar a própria vida. A pergunta que ecoa é: quem é o culpado? O cidadão que acreditou na promessa fácil de enriquecimento? Ou os governantes e reguladores que permitiram essa superexposição sem filtros?

Mas não é apenas o universo das apostas que nos ameaça. O uso indiscriminado da inteligência artificial também merece atenção. Ferramentas poderosas, capazes de transformar setores inteiros, estão sendo utilizadas sem critérios claros. A IA pode gerar eficiência, inovação e até soluções sustentáveis — algo que defendo como ativista da transição energética. Mas, sem regulação, ela também pode manipular informações, reforçar preconceitos e criar bolhas de desinformação. O que deveria ser instrumento de progresso corre o risco de se tornar arma de manipulação.

E há ainda o fenômeno das redes sociais, que se tornaram palco de ódio e discórdia. Plataformas que nasceram para conectar pessoas hoje alimentam polarizações, ataques pessoais e campanhas de desinformação. O algoritmo, em busca de engajamento, privilegia o conteúdo mais extremo, mais agressivo, mais inflamado. O resultado é uma sociedade cada vez mais fragmentada, onde o diálogo cede espaço à intolerância.

Diante de tudo isso, cabe perguntar: o que nossos governantes fizeram para proteger os brasileiros? Até agora, pouco. Enquanto outros países criam barreiras, estabelecem limites e pensam em políticas públicas de proteção, aqui seguimos expostos. A sociedade brasileira parece tratada apenas como massa de consumo, vulnerável às ofertas mais sedutoras e perigosas.

Não se trata de demonizar a tecnologia, nem de negar a liberdade individual. Trata-se de reconhecer que há riscos coletivos que exigem ação coletiva. O Estado tem responsabilidade em proteger seus cidadãos. Empresas têm responsabilidade em não explorar fragilidades humanas. E nós, como sociedade, temos responsabilidade em cobrar e refletir.

O Brasil precisa urgentemente de uma agenda de proteção social que vá além do discurso. Precisamos de regulação séria para o mercado de apostas, de diretrizes éticas para o uso da inteligência artificial e de políticas que enfrentem o ódio nas redes sociais. Sem isso, continuaremos a assistir ao adoecimento da população, ao aumento do endividamento e à corrosão dos vínculos comunitários.

Novos tempos exigem não apenas novos hábitos, mas também novas responsabilidades. Se queremos prosperar como sociedade, precisamos equilibrar inovação e proteção, liberdade e responsabilidade, consumo e consciência. O futuro não pode ser apenas sobre tecnologia ou lucro: deve ser sobre como escolhemos viver, aprender e nos relacionar.

O desafio está lançado. E a pergunta que fica é: vamos continuar expostos, ou vamos finalmente construir barreiras que nos protejam dos riscos que já estão diante de nós?

Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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