Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 22 de novembro de 2020
A Marinha, o Exército e o Itamaraty utilizam, há mais de 60 anos, equipamentos e serviços de comunicação secreta fornecidos pela Crypto AG – empresa que foi controlada por serviços de inteligência dos EUA durante décadas. Documentos revelados pelo jornal O Globo mostram que, entre 2014 e 2019, o Brasil comprou produtos da empresa para equipar submarinos brasileiros do programa Prosub.
A ligação entre a Crypto AG e o governo norte-americano foi revelada pelo jornal Washington Post em fevereiro deste ano. Segundo a reportagem, tanto a CIA quanto o Serviço Federal de Inteligência (BND) da Alemanha inseriram falhas ocultas nos códigos dos equipamentos, para que pudessem ler mensagens criptografadas de diversos países que compraram os aparelhos. Isso indica, por exemplo, que o governo dos EUA sabia de violações aos direitos humanos praticadas por ditaduras na América Latina.
A compra de serviços da Crypto AG pelo governo brasileiro está em documentos oficiais do país, descobertos pelos pesquisadores Vitelio Brustolin, da Universidade Federal Fluminense (UFF); Dennison de Oliveira, da Universidade Federal do Paraná (UFPR); e Alcides Peron, da Universidade de São Paulo (USP).
A Crypto AG foi vendida em 2018. Em nota oficial, a Marinha afirmou que “desconhece, oficialmente, alegações de comprometimento da qualidade ou da segurança” dos equipamentos, e que os aparelhos “atendem requisitos técnicos e de segurança, e são amplamente testados pela Força antes de serem operacionalizados” .
“O golpe do século”
A maioria das denúncias contra a Crypto AG foi publicada em fevereiro deste ano no Washington Post por Greg Miller, correspondente de segurança nacional do jornal, em parceria com a TV alemã ZDF. No texto chamado “O golpe de inteligência do século: por décadas, a CIA leu as comunicações encriptadas de aliados e adversários”, Miller conta como a empresa suíça Crypto Aktiengesellschaft (Crypto AG), a princípio privada, passou para o controle da Agência Central de Inteligência (CIA) e de sua homóloga alemã, o Serviço Federal de Inteligência (BND).
Baseando-se em um relatório interno da CIA, Miller relata como, começando nos anos 1950, mas sobretudo a partir da década de 1970, estas agências, em parceria com a também americana Agência de Segurança Nacional (NSA), inseriram falhas ocultas nos códigos dos dispositivos para conseguirem ler mensagens criptografadas, ao mesmo tempo em que vendiam os aparelhos mundo afora.
Além de lidas, as mensagens eram frequentemente encaminhadas aos aliados mais próximos dos dois países. “Governos estrangeiros pagavam um bom dinheiro aos EUA e [ao que era então] a Alemanha Ocidental pelo privilégio de ter suas comunicações mais secretas lidas por pelo menos dois (e possivelmente cinco ou seis) países estrangeiros”, diz o documento da CIA. A Alemanha manteve-se sócia da empresa até 1992, quando, com receio de ser descoberta, abandonou a parceria.
As denúncias do Post comprovaram antigas suspeitas contra a Crypto AG. Em 1982, durante a Guerra das Malvinas, a Argentina convenceu-se de que mensagens secretas suas haviam sido decifradas por forças britânicas. Após um executivo da empresa suíça viajar para Buenos Aires, acabou persuadindo os argentinos de que o problema estava em um único equipamento desatualizado — conseguindo esconder que, na verdade, as informações foram entregues a Londres pelo governo Reagan.
Já em 1992, o Irã tomou uma atitude contra a empresa. Após anos de suspeitas, deteve um vendedor da companhia durante 9 meses, até o pagamento de um resgate. O caso levou atenção midiática à Crypto AG, e várias reportagens nos anos seguintes investigaram o seu envolvimento com o governo americano. Uma dessas matérias foi feita em 1995 pelo Baltimore Sun, e expunha parte do envolvimento da Crypto AG com a NSA. Segundo o Washington Post, isso reduziu muito o número de países que faziam negócios com a empresa, que se tornou deficitária.
Esses antecedentes não foram suficiente para impedir o Estado brasileiro de contratar serviços da Crypto AG. Pelo contrário, a Marinha continuou a comprar produtos da empresa a até menos de um ano atrás. Procurada, a força afirmou por escrito anteontem que “a Marinha do Brasil (MB) desconhece, oficialmente, alegações de comprometimento da qualidade ou da segurança dos equipamentos” por ela adquiridos.
A ligação da Crypto AG com o Brasil começou a ser mapeada por Vitelio Brustolin, professor de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador de Harvard, que convidou para ajudá-lo os colegas Dennison de Oliveira, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), e Alcides Peron, da Universidade de São Paulo (USP). Ao vasculhar arquivos no Brasil e nos EUA, o trio encontrou várias situações em que órgãos brasileiros adquiriram equipamentos da Crypto AG, analisadas em um artigo científico publicado na última semana.
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