Domingo, 03 de maio de 2026
Por Renato Zimmermann | 2 de maio de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Na última semana, participei de um evento sobre inteligência artificial aplicada ao marketing, realizado na Unisinos, em Porto Alegre. Foram horas intensas de painéis e palestras que me deixaram em estado de reflexão profunda. Passei dois dias remoendo pensamentos, ressignificando entendimentos e tentando encontrar serenidade em meio ao turbilhão de ideias que minhas sinapses insistiam em disparar. O impacto foi tão grande que ainda sinto reverberar em mim a necessidade de traduzir tudo isso em ação.
Um nome foi repetidamente citado: Alvin Toffler. Para quem não conhece, Toffler foi um dos mais influentes futuristas do século XX, autor de obras que se tornaram referência mundial sobre as transformações sociais e tecnológicas. De imediato, vieram à minha mente dois livros que li há anos: Choque do Futuro e A Terceira Onda. Lembro que já não tenho mais esses exemplares, pois ao longo das mudanças de endereço fui doando, encaixotando ou simplesmente deixando para trás parte do meu acervo. Hoje, com o uso da inteligência artificial, reencontrar esses conteúdos se tornou mais fácil e acessível.
Mas a surpresa maior foi redescobrir que Alvin não estava sozinho. Ao seu lado, como companheira intelectual, profissional e de vida, estava Heidi Toffler. Heidi foi coautora de todas as grandes obras, mas permaneceu em segundo plano. Na época em que viviam, a presença feminina em produções intelectuais muitas vezes era vista como algo que poderia enfraquecer o conteúdo. Por isso, Heidi não recebeu o reconhecimento merecido. É uma injustiça histórica que precisa ser corrigida. A partir de agora, sempre que mencionar a visão dos Toffler, farei questão de citar Heidi e Alvin juntos.
Heidi e Alvin eram mestres em decifrar o que chamamos de “código do tempo”. Esse conceito significa a capacidade de ler os sinais do presente e compreender as forças que moldam o futuro. Eles não eram profetas, mas intérpretes atentos das mudanças já em curso. Heidi, como tantas outras mulheres de sua época, ficou em segundo plano, mas sua contribuição foi decisiva para que essa leitura fosse precisa e profunda.
O futuro chegou, e as previsões de Heidi e Alvin se mostraram meticulosamente corretas. Décadas atrás, quando eu ainda era bebê, eles já desenhavam a revolução que estamos vivendo agora: a sociedade da informação, a aceleração das mudanças, o deslocamento do poder para quem controla conhecimento e dados. Mais do que isso, eles tinham uma visão clara sobre ecologia e sustentabilidade. Para os Toffler, não haveria futuro sem novos valores culturais e ecológicos. Anteciparam que a sobrevivência das sociedades dependeria da capacidade de integrar tecnologia com respeito ao meio ambiente e às culturas locais.
Hoje, como desenvolvedor de negócios sustentáveis, vejo que essa leitura é mais atual do que nunca. O propósito – valor que guia minhas escolhas e minha forma de agir – precisa estar conectado ao código do tempo. Não basta falar em sustentabilidade como discurso; é preciso decifrar os sinais de agora: a crise climática, a inteligência artificial, a economia digital, as tensões sociais. O propósito dá sentido, mas o código do tempo dá direção prática.
Heidi e Alvin nos ensinaram que o futuro não é uma adivinhação, mas uma construção consciente. E essa construção só será legítima se unir valores de igualdade, leitura atenta do presente e compromisso com a sustentabilidade. O desafio que trago desta semana é justamente esse: transformar propósito em prática, decifrar o código do tempo e, assim, reescrever o futuro de forma resiliente e justa.

* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética (Contato: rena.zimm@gmail.com)
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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