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Ali Klemt O conforto da alienação

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Existe uma linha muito tênue entre descansar da realidade e abandonar a realidade. (Foto: GAI Media)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Confesso: faz uma semana que quase não acompanho as notícias. E, para minha surpresa, é uma delícia.

Esqueci da careca do Xandão, da cara de pau do Lula, da palhaçada que é a falta de solução para a fraude do INSS. E o Vorcaro, que ainda não delatou nada? Ah, para! Pelo menos ainda tá vivo (lembranças ao Sicário).

E essas são notícias que irritam, mas não são as piores. As que mais me “maltratam” são as de feminicídio. Ou, pior: as de abuso de crianças. As de crimes contra esses seres inocentes, as criaturas mais sagradas da Terra. Como mãe, isso ACABA comigo. E, muitas vezes, me pego pensando: por quê? Por que isso acontece, meu Deus?

Jamais encontro respostas. E isso me dói de uma forma que não sei explicar.

Foi assim por seis anos e meio, acompanhando as notícias todo santo dia. Mais do que isso: vivendo-as. Pensando sobre elas. Sofrendo. Opinando.

Indo mais além, eu entrego o meu coração ao buscar soluções para os problemas que, claramente, ecoam dos fatos terríveis que noticiamos. E o inevitável acontece: na maioria das vezes, sinto-me impotente. Absolutamente incapaz de resolver tudo.

Aí entra a suposta paz da ignorância. Dizem, até, que ela é uma bênção. Será? Fato é que o celular fica mais leve. A cabeça silencia. O coração desacelera. De repente, o mundo parece um lugar melhor simplesmente porque deixamos de olhar para ele. Ou, ao menos, deixamos de nos focar no seu lado sombrio.

É um alívio!

E é por isso que tanta gente escolhe viver assim. Pessoas inteligentes. Pessoas interessadas. Pessoas conectadas. Eu super compreendo.

O problema é que existe uma linha muito tênue entre descansar da realidade e abandonar a realidade.

O mundo, afinal, não para quando fechamos o aplicativo de notícias. As decisões continuam sendo tomadas. Os impostos continuam sendo criados. As leis continuam sendo aprovadas. Os nossos direitos continuam podendo ser ampliados — ou, pior, reduzidos. A educação dos nossos filhos continua sendo definida por alguém. O dinheiro público continua sendo gasto. A violência continua acontecendo.

Tudo continua.

E esse fechar de olhos é de um perigo gigantesco…

Existe um conforto enorme na alienação. Ela nos protege da ansiedade. Nos poupa da indignação. Nos livra das discussões. Eu até diria que, para a nossa saúde mental — e, portanto, bem-estar, no geral — ela faz bem.

Ocorre que viver sem tomar conhecimento do que acontece da porta para fora é ótimo se o mundo fosse… normal. Mas ele não é. O mundo é injusto. E a injustiça, senhores, é um mal que se espalha aos poucos e corrói a sociedade por dentro. Até o ponto de destruir a todos nós. Até mesmo os alienados (que, afinal, sequer verão o perigo chegando, já que estão vivendo sem noção).

Ou seja, essa “ação de não saber” acaba sendo uma omissão séria — e cobra um preço alto: transforma cidadãos em espectadores.

Quem se desliga completamente ganha tranquilidade… mas perde contexto. A pessoa deixa de perceber mudanças graduais que, quando se tornam evidentes, já produziram efeitos importantes. Leis mudam. Impostos aumentam. Direitos são restringidos ou ampliados. Transformações culturais acontecem. Tecnologias substituem profissões. Sem perceber, o indivíduo troca ansiedade por vulnerabilidade.

E aí, você já sabe… Os maiores erros da história raramente aconteceram porque todos concordavam com eles. Aconteceram porque muita gente simplesmente resolveu não prestar atenção.

Foi assim quando regimes autoritários cresceram aos poucos, até que já era tarde demais para contê-los. Foi assim quando populações inteiras fecharam os olhos para a perseguição de minorias. Foi assim quando crises econômicas eram anunciadas por especialistas, mas ignoradas por quem preferia acreditar que “alguém resolveria”. Foi assim em tantos escândalos de corrupção que prosperaram porque a indignação deu lugar ao cansaço.

Enquanto alguns observavam os sinais, a maioria apenas seguia a vida. Enquanto os atentos discutiam, os alienados trabalhavam, viajavam, assistiam às suas séries, cuidavam da rotina e acreditavam que política, economia ou liberdade eram assuntos de outras pessoas.

Até que deixaram de ser. E sabe por quê? A realidade tem uma característica inconveniente: ela não deixa de existir só porque escolhemos não olhar para ela.

Então, um dia, a realidade bate à porta…

Não estou defendendo que vivamos mergulhados em notificações ou consumindo desgraça vinte e quatro horas por dia. Isso também adoece. O desafio talvez seja outro: encontrar um equilíbrio entre preservar a saúde mental e preservar a consciência.

A verdadeira paz não surge ao ignorar o mundo. Paz é conseguir olhar para ele sem perder a esperança.

Esta semana eu experimentei o silêncio das notícias. Foi agradável, porém foi um lembrete: é muito fácil viver à margem da realidade. Difícil — e necessário — é permanecer consciente dela sem permitir que ela roube a nossa serenidade. Como, enfim, permanecer conscientes sem nos tornarmos reféns?

Viver sem saber é como viver anestesiado. Pode até trazer uma paz momentânea, mas, um dia, o mundo real se apresenta.

Por outro lado, não precisamos viver em estado permanente de indignação, alimentando a ansiedade a cada nova manchete. Isso não é lucidez. Pelo contrário, é exaustão com viés pós-moderno.

O desafio está no equilíbrio (aliás, sempre está!).

E a conclusão não poderia ser outra: o remédio para a alienação não é a obsessão. É a consciência. E essa é a chave de tudo.

* Ali Klemt

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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