Terça-feira, 19 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 27 de abril de 2018
Apesar de ser o anfitrião da festa, José Dirceu estava mais calado do que de costume. Em clima de adeus, sem discursos e com um semblante abatido, o todo-poderoso da República durante o primeiro governo Lula (2003-2006) recebeu cerca de 30 convidados na noite do último dia 17 de abril, uma terça-feira, no salão do restaurante Tia Zélia, um dos favoritos do ex-presidente do PT em Brasília (DF). O motivo do convescote: despedir-se da liberdade. Àquela altura, Dirceu tinha feito suas contas: seria preso nos próximos dias, já que o TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região) julgaria naquela semana seus embargos de declaração — um dos últimos recursos a que tem direito — e o mandaria de volta ao presídio no Paraná onde ficou detido de agosto de 2015 a maio de 2017. As informações são da revista Época.
No jantar de despedida, o ex-ministro incluiu no cardápio um de seus pratos preferidos — rabada —, além de galinha caipira. Os escassos brindes daquela noite foram feitos com caipirinha e cerveja. Um dos melhores amigos de Dirceu, o advogado José Oscar Pereira, conhecido por seus discursos, preferiu o silêncio.
“Era como se o Zé estivesse indo ao próprio velório”, relatou um dos presentes sobre o ânimo do petista, que ficou das 20h30min à meia-noite se revezando de mesa em mesa em conversas que iam de amenidades, como seus olhos roxos em decorrência de uma cirurgia plástica nas pálpebras, à prisão de Lula, que acontecera dez dias antes.
A ideia inicial era fazer um jantar para dez pessoas no escritório do advogado Roberto Podval, defensor de Dirceu, na capital federal. O local já funcionava como QG do petista para manter a discrição de encontros, principalmente com senadores e deputados do PT e outros nomes da política que queriam debater com Dirceu o cenário atual. No entanto, o tamanho do imóvel e a trabalheira de levar panelas e acessórios de cozinha fizeram com que o plano fosse abortado.
“Não era um dia de celebração”, limitou-se a dizer o deputado Orlando Silva (PCdoB-SP), que passou no fim da festa para ver o ex-ministro. Antes de chegar ao Tia Zélia, Silva pretendia jantar em um restaurante a poucos metros dali, no mesmo bairro. Ao chegar, deparou com o presidente Michel Temer em uma reunião com a bancada do MDB, numa recepção para novos filiados do partido. Soube do evento de Dirceu, deu meia-volta e seguiu para lá.
Aquele jantar marcava o fim de uma série de encontros que o ex-ministro vinha fazendo para se despedir dos amigos e usar as horas que lhe restavam para fazer política. No domingo (15), recebeu em casa um de seus advogados e Lédio Rosa, desembargador aposentado que será candidato ao Senado pelo PT em Santa Catarina, para mais uma vez despedir-se e falar sobre o contexto eleitoral de 2018. Na segunda-feira (16), participou de uma plenária com o líder do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), João Pedro Stédile, em Brasília, onde invocou os cerca de 100 militantes a ser implacáveis com o governo de Michel Temer e a se transformar em soldados engajados na liberdade do ex-presidente Lula.
Solto há quase um ano por decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), que concedeu a ele um habeas corpus para que aguardasse em liberdade o julgamento dos recursos que sua defesa impetrou na segunda instância, Dirceu foi obrigado a levar uma vida muito mais modesta do que em sua última passagem pela capital federal, quando cumpria prisão domiciliar em uma mansão no Lago Sul devido à condenação no mensalão, em 2015. A ampla casa, com sala espaçosa, obras de arte, piscina e funcionárias para servi-lo, deu lugar a um apartamento em um bairro de classe média em Brasília que pertence à sogra do ex-ministro, mãe de Simone, sua atual mulher.
Com R$ 11 milhões em bens — com leilão previsto para esta semana — e com as contas bloqueadas, Dirceu vive dos R$ 9.600 mensais de aposentadoria que recebe da Câmara dos Deputados pelo tempo de serviço prestado à Casa. Amigos também fazem doações.
Com a realidade da volta à cela de 12 metros quadrados do Complexo Médico Penal, na região metropolitana de Curitiba, cada vez mais próxima, Dirceu pensa em estratégias para ficar mais perto da família e da política. Uma delas é pedir sua transferência para o presídio da Papuda, em Brasília, onde mesmo encarcerado pretende manter suas reuniões.
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