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Edson Bündchen O insidioso charme da anticiência

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A busca pela melhor forma de combater a Covid-19 abriu uma larga avenida para experimentos, muitos deles perfeitamente aderentes ao método científico, vários outros nem tanto, e alguns casos em confronto, senão ofensa direta aos ditames mais elementares do saber técnico. Tal ambiente encorajou ao público em geral uma participação poucas vezes vista, com a proliferação descomedida de “cientistas de WhatsApp”, palpiteiros inconsequentes e toda a espécie de contribuições não acadêmicas, mas nem por isso despojadas de uma autoconfiança que faria corar Galileu Galilei. É bem verdade que referido fenômeno está sendo mais comum em ambientes politicamente polarizados, como é o caso do Brasil. Aqui, o estímulo ao negacionismo está diretamente ligado a disputas ideológicas, fato que explica o porquê de certos comportamentos chocarem-se frontalmente contra a parcimônia e a prudência, virtudes que, juntamente com a superação de paradigmas, sustentam a boa ciência, aquela que se mantém aberta à dúvida, motor do seu próprio avanço, mas não a ponto de subverter a realidade e tornar a terra plana, tampouco eliminar a lei da gravidade.

Enquanto as insinuações anticiência estiveram circunscritas a disparates e teorias conspiratórias ingênuas, não haveria por que temer qualquer tipo de inquietação junto ao mundo acadêmico. Entretanto, a pandemia fez emergir o lado sombrio de algumas pessoas, que somado à inconsequência, passou a ameaçar a segurança da própria saúde pública, expondo muitos a riscos desnecessários a partir dessa interpretação livre e altamente imprudente quanto aos limites da liberdade de tratamento, do uso ou não de máscaras e da eficácia ou não das vacinas. A ciência, por si mesma, já é palco de conflitos e contradições naturais, e deveria estar blindada a parvoíces, mas não é exatamente assim. Relações complexas, intercambiantes e extremamente instáveis formatam o pano de fundo do conhecimento científico. O método científico também nos adverte para a fragilidade das certezas, concluindo que a pesquisa inevitavelmente será tão frágil quanto efêmera é nossa condição. Estaríamos, nessa perspectiva, sempre diante do lacunoso, do imperfeito e, nesse âmbito, as convicções devem ser permanentemente questionadas. O que se vê, contudo, no discurso daqueles que hoje postulam certezas, juntando Deus, voluntarismo e uma enorme falta de humildade, é exatamente o contrário dessa prudente contenção.

Além de enfrentar o fantasma do obscurantismo contemporâneo, o conhecimento científico é desafiado a se digladiar com os pós-modernistas que, em nome da diversidade, complexidade e multiculturalidade, caíram num relativismo paralisante, que não deixa de ser outra forma de absolutismo. A ciência se debate hoje entre a obtusidade do negacionismo e uma espécie de vale-tudo conceitual dos pós-modernos. As possibilidades e ameaças emanadas desses chamados “novos ventos” trazem o conhecimento científico e seus métodos de legitimação para a zona do questionamento persistente, inclusive de quem não teria legitimidade para tal. Assim, cair na fragmentação excessiva, respondendo às pretensões transcendentais modernistas com espectros relativistas, pode ser tão inútil quanto imaginar que é possível ignorar o apelo reducionista do negacionismo, mormente pelas implicações humanitárias envolvidas.

Defender a ciência parecia ser uma tarefa menos urgente, mas não mais, a considerar a amplitude com que afloram os seus detratores, impondo-nos a recuperação e o reforço de princípios consagrados academicamente e que, de modo improvável, mas real e alarmante, estão sendo ameaçados. Combater, na mesma medida, a anticiência, converte-se agora num esforço conjunto de toda a sociedade, começando por subtrair a imerecida atração daqueles que se opõem às luzes e abraçam a escuridão. Nunca é tarde para refutar a frase que teimosamente nos provoca, insinuando que a burrice no Brasil teve um passado glorioso e desfruta de um futuro promissor. Não precisa e não deve ser assim!

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