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Edson Bündchen O neandertal que habita em nós

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Fato curioso, alarmante e até mesmo surpreendente, é a dificuldade que alguns países enfrentam para convencer as pessoas a se vacinar contra a Covid-19. Nos EUA, por exemplo, em vários condados, mesmo com ampla disponibilidade de vacinas, o índice de cobertura vacinal encontra-se abaixo de 20%. Segundo analistas, questões de caráter cultural, religioso e político ideológico, estariam por trás desse preocupante fenômeno. O Governo americano, numa tentativa para incentivar mais pessoas a buscarem a imunização, está bonificando em dinheiro cidadãos que resistem à vacina. Na Rússia, até automóveis estão sendo sorteados para estimular os mais recalcitrantes. Por aqui, embora o índice de vacinados com a segunda dose ainda seja pequeno, já existem dados inquietantes acerca das elevadas taxas de abstenção. Os porcentuais de não comparecimento nas agendas divulgadas, em alguns casos, superam os 30% do público-alvo. Esse quadro é particularmente grave a partir da necessidade de se atingir 70% de pessoas vacinadas para que tenhamos a conhecida “imunidade de rebanho”, e voltemos à tão sonhada normalidade, já experimentada por muitos países. Os fatos acima narrados, além de natural estranheza que provocam, trazem à baila a questão dos direitos e das fronteiras do livre agir, quando estão em jogo conceitos mais ampliados de vida em sociedade e de segurança coletiva, bem como abrem uma enorme interrogação sobre o comportamento contraintuitivo das pessoas.

A deplorável rejeição aos imunizantes não está restrita aos já conhecidos grupos antivacinas que infestam as redes sociais com suas teorias infundadas e muitas vezes criminosas. Pessoas que hoje recusam o único mecanismo comprovadamente eficaz contra a Covid-19, convivem entre nós, não apresentam aparentemente nenhum distúrbio psicológico, mas enveredam pelo campo de crenças descabidas, mergulhando num ceticismo estéril, feitos neandertais assustados. O homem sempre teve um olhar de espanto diante das maravilhas da ciência, sendo inegável que experimentamos hoje um estágio absolutamente inimaginável há poucas décadas. Após a humanidade enfrentar a fome, as guerras e as pestes durante séculos, o alvorecer do terceiro milênio, mesmo não sendo ainda capaz de eliminar os grandes cataclismas humanitários, os reduziu enormemente. Dentre os avanços, a ciência médica foi uma das áreas com um dos mais extraordinários progressos. Nossa expectativa de vida que era de não mais do que 40 anos, há menos de um século, quase que dobrou, e a engenharia genética sinaliza conquistas ainda mais espetaculares para os próximos anos.

Mesmo assim, parcela da sociedade permanece com arraigada desconfiança na razão e na eficácia dos remédios, refém de uma conduta, por vezes pueril, mas nem por isso menos deletéria e constrangedoramente mortal, uma vez que abdica, em seu próprio desfavor, de uma cura quase certa por crenças, superstições ou ignorância. Mais alarmante se torna a situação quando lideranças constituídas, em vez de incentivar o uso consciente de máscaras, distanciamento social e defesa dos efeitos comprovadamente positivos das vacinas, se posicionam em sentido oposto, defendendo posturas negacionistas, em flagrante descompasso com o bom senso e aquilo que prescreve a ciência.

Por outro lado, louve-se o esforço da grande maioria de médicos, cientistas, políticos conscientes e a população de forma geral que reconhecem a importância dos protocolos estabelecidos e conseguem discernir o que tem fundamento do simples charlatanismo e de outras atitudes inconsequentes que atuam na contramão da prudência, da sabedoria e do discernimento correto acerca da trágica realidade que a atual pandemia nos impõe. Apesar dos percalços, da má gestão, e dos erros que assistimos na condução do combate à Covid-19, o processo de vacinação caminha e sinaliza que, em 2022, poderemos retomar gradualmente a nossa rotina, sempre atentos, porém, ao fantasma do neandertal que obstinadamente habita em cada um de nós.

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