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Edson Bündchen Eterna vigilância

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Vários estudos tentaram desvendar o porquê e quais são os mecanismos psicológicos do fanatismo. Fruto do realismo ingênuo, as vítimas de modelos mentais aficionados abraçam a sempre tentadora simplificação da realidade e, não de forma incomum, advogam a prática do “nós contra eles” como mecanismo de amparo para as suas tensões, particularmente aquelas engendradas em confronto com um adversário, real ou imaginário. Estratégias políticas que flertam com o modelo autoritário, dentro de uma realidade social bastante elástica, encontram terreno fértil para a produção de narrativas e retóricas autocráticas. Nessa perspectiva de “domesticação”, a dominação vem logo na sequência, e passam a produzir obediência cega e fidelidade canina, com aquiescência até mesmo de erros injustificáveis. O conforto das certezas e o abandono das dúvidas dispensa o esforço de pensar, fechando o círculo da alienação, ainda mais perigoso, considerando que o fanatismo é “a única forma de força de vontade acessível aos fracos” e “a massa nunca se eleva ao padrão do seu melhor membro; pelo contrário, degrada-se ao nível do pior”, conforme afirmaram Nietzsche e Thoreau, em frases tornadas clássicas.

Na década de 1960, o psicólogo americano da Universidade de Yale, Stanley Milgram, ainda impactado pelos efeitos trágicos da Segunda Grande Guerra, buscava compreender como foi possível o evento do Holocausto ser perpetrado por pessoas comuns, e não monstros como haveria de se supor. O experimento, apesar de inconclusivo, sugere que somos suscetíveis a cumprir ordens de autoridades, mesmo que essas ordens contradigam o bom senso individual. Na mesma senda, cerca de dez anos mais tarde, outro psicólogo americano, desta vez de Stanford, colocou em prática uma pesquisa ainda mais ousada e polêmica, a ponto de não ter sido concluída. Philip Zimbardo, tentou comprovar que temos uma natureza sádica ou masoquista a nos governar, e que nossa natureza humana não está totalmente sujeita ao livre arbítrio. A maioria de nós, na verdade, denotou a pesquisa, podemos ser seduzidos a nos comportar de maneira totalmente diferente em relação ao que acreditamos que somos. É tênue a linha que nos separa do bem e do mal.

Nessa perspectiva, não há utilidade e, mais do que isso, é bastante temerário ignorar os sinais de recrudescimento do fanatismo, de forma mais pronunciada concebendo que o mesmo é geralmente o prelúdio de infortúnios. Ninguém está livre, conforme denotam os indícios em vários países do mundo, de surgir ou ressurgir em qualquer lugar, um ditador ressentido e carismático. Líderes políticos de viés populista, conhecedores ou não do que a moderna psicologia comprovou quanto aos efeitos manipulativos de uma gestão temerária, podem estar à espreita, agindo ainda de modo incipiente ou já plasmando um domínio que revele controle sobre as massas. Considerados inofensivos, no início, dado seu caráter algo burlesco, bonachão ou até cômico em suas personalidades, na sua aparência ou modo de falar, referidos sujeitos, assim que dotados de poder, poderão não hesitar em assumir sua face despótica.

Reconhecer a fragilidade psicológica que nos acomete, conforme revelaram estudos comportamentais, nos dá uma pista importante para auferir o perfil antidemocrático de nossas lideranças. Temos políticos em cargos de grande envergadura afeitos ao personalismo? Que violam frequentemente promessas de campanha? Que por mais democráticos e defensores da liberdade se autodefinam, entregam-se a arroubos autoritários, reagem mal às críticas dos meios de comunicação e são dóceis àqueles que os adulam? Que instilam o ódio aos adversários, transformando-os em inimigos? Que buscam, de forma sistemática, atacar as instituições e desacreditá-las perante a sociedade? Que governam para uma parte de seguidores que os aplaudem incondicionalmente? O risco à democracia é diretamente proporcional a quantos sins foram respondidos, e o preço para que isso não ocorra será a nossa eterna vigilância.

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