Quinta-feira, 07 de maio de 2026
Por Suellen Ribeiro | 7 de maio de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Vivemos em uma geração cansada. Cansada de correr, de provar, de performar felicidade o tempo inteiro. Nunca estivemos tão expostos e, paradoxalmente, talvez nunca tenhamos estado tão emocionalmente exaustos.
Hoje, o mundo é “figital”. Ele é físico, mas também digital. Não basta apenas ser bom no que fazemos. Existe uma pressão constante para parecer bom, mostrar resultados, comunicar conquistas e convencer as pessoas de que somos relevantes.
E eu entendo isso profundamente, afinal, eu também faço parte desse mundo.
Eu também compartilho viagens, trabalhos, projetos, entrevistas, palestras e momentos felizes. E eles são reais, nada do que eu posto é mentira. Mas existe uma verdade silenciosa que quase nunca aparece nas redes sociais: ninguém posta o peso emocional de precisar sustentar uma versão constantemente admirável de si mesmo.
As redes mostram recortes, é como se mostrássemos um trailer, só os melhores momentos. E, aos poucos, fomos criando uma sociedade onde as pessoas não querem apenas ser felizes, elas sentem que precisam parecer felizes o tempo inteiro. Você abre o Instagram e parece que todos estão vivendo algo extraordinário. Todo mundo viajando, crescendo, sorrindo, prosperando. Mas fora das telas, o que mais vejo são pessoas cansadas, ansiosas, emocionalmente aceleradas e dependentes de pequenas doses de validação.
Vivemos atrás de pequenas recompensas emocionais imediatas. Curtidas, elogios, compras, notificações, aprovação. Uma felicidade rápida, instantânea, quase como uma dopamina barata: algo que estimula por alguns minutos, mas não sustenta por dentro.
E talvez o sinal mais alarmante disso tudo seja perceber que essa exaustão emocional já alcançou até os adolescentes. Jovens que mal começaram a viver já convivem com ansiedade, pressão estética, comparação constante e necessidade de aprovação. Nunca tivemos uma geração tão conectada e, ao mesmo tempo, tão emocionalmente sobrecarregada.
É claro que ansiedade não nasce apenas das redes sociais. Existem fatores emocionais, biológicos, hormonais e psicológicos muito mais profundos e complexos do que isso. Mas é impossível ignorar que a cultura da performance constante amplifica esse cenário. Estamos criando uma sociedade altamente estimulada, mas cada vez menos conectada consigo mesma.
Outro dia ouvi uma reflexão interessante: no fundo, a maioria das pessoas busca uma destas três coisas: fama, dinheiro ou poder. E, sendo honesta, acredito que todos nós temos um pouco disso. Queremos reconhecimento, segurança, influência. Queremos sentir que nossa vida importa.
O problema começa quando transformamos essas coisas em fonte de identidade. Porque nada externo sustenta uma alma por inteiro.
Recentemente também ouvi um pastor dizer algo que ficou profundamente guardado em mim: existe dentro do ser humano um vazio que nada material consegue preencher completamente. E talvez seja exatamente por isso que vemos tantas pessoas conquistando o que sempre quiseram e, ainda assim, permanecendo vazias.
Passei muito tempo acreditando que felicidade era viver momentos extraordinários. Hoje, acredito que felicidade é conseguir ter paz até nos dias ordinários. E ordinário não significa ruim. Significa comum, simples, habitual.
Talvez um dos maiores luxos da atualidade seja justamente conseguir viver dias comuns sem ansiedade, sem necessidade constante de aprovação e sem transformar a própria vida em espetáculo. O café sem foto. O almoço sem postagem. O domingo silencioso. A paz sem plateia.
A presença de Deus na nossa vida não elimina os problemas, as responsabilidades ou as dores da existência, mas muda completamente o lugar de onde enfrentamos tudo isso. Porque quando Deus ocupa o centro, a alma desacelera, e, talvez seja justamente isso que tantas pessoas estejam procurando sem perceber: não mais estímulo, mas sentido, mais presença. Não mais aparência de felicidade, mas paz verdadeira.
Jesus disse em João 14:27: “A minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá.”
Talvez o mundo tenha confundido felicidade com euforia, quando, na verdade, o que a alma humana mais deseja é descanso.
Hoje, mais do que viver para impressionar pessoas que estão ocupadas demais tentando sustentar as próprias performances, eu acredito que precisamos reaprender a viver com verdade, propósito e presença.
E talvez escrever este artigo também seja um reflexo muito sincero do momento que estou vivendo hoje. No auge dos meus 40 anos, percebo uma mudança profunda na minha maneira de enxergar sucesso, felicidade, realização e até mesmo a forma como me relaciono comigo mesma, com o mundo e com Deus.
Durante muitos anos, vivi tentando mostrar força, competência, crescimento e movimento constante. E não existe problema em prosperar, conquistar ou desejar crescer na vida, porque prosperidade também pode ser bênção, fruto de trabalho, dedicação e propósito. Mas chega uma fase em que começamos a perceber que existe uma diferença enorme entre construir uma vida sólida e viver tentando convencer os outros de que estamos felizes o tempo inteiro.
Hoje, cada vez mais, a minha busca tem sido menos por performance e mais por presença, menos por validação e mais por sentido, menos por excesso e mais por profundidade. Porque chega um momento em que entendemos que nenhuma conquista externa consegue sustentar uma alma desconectada de Deus, de si mesma e daquilo que realmente importa.
Talvez essa seja uma das maiores viradas de chave da maturidade: compreender que paz vale mais do que aparência, que presença vale mais do que aplauso e que uma vida inteira não pode ser sustentada apenas pela necessidade constante de reconhecimento.
E se em algum momento da minha trajetória eu influenciei pessoas apenas ao consumo, ao excesso ou à ideia de que felicidade precisa estar sempre associada a grandes conquistas, hoje eu gostaria de influenciar de outra maneira: Gostaria de lembrar que felicidade também mora no simples, nos dias comuns, nas conversas verdadeiras, no silêncio, na mesa de casa, na fé e na presença de Deus, porque uma vida não precisa se transformar em espetáculo o tempo inteiro para ter valor.
No fim, talvez o maior luxo da atualidade seja justamente encontrar contentamento naquilo que o mundo aprendeu a chamar de ordinário.

* Suellen Ribeiro – empresária, mentora e apresentadora do Jornal da Pampa, do Grupo Rede Pampa (Instagram: @suribeiroc)
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
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