Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 3 de dezembro de 2018
O novo presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, está prestes a fechar um acordo para receber ao menos 3 mil médicos cubanos que vinham trabalhando no Brasil.
Conforme o jornal O Estado de S.Paulo, a negociação entre o primeiro representante da esquerda a chegar à presidência mexicana e o regime cubano começou em setembro. Cuba anunciou que retiraria seus médicos do Brasil no dia 14 de novembro.
As tratativas foram mantidas em sigilo, até agora. Obrador tem um plano de austeridade que pretende reduzir o salário de servidores públicos, entre eles os médicos. Os cubanos que passaram pelo Brasil, portanto, ajudariam a cobrir cortes nos gastos públicos. “É austeridade, não vingança”, repetiu Obrador como um slogan durante sua campanha.
Lázaro Cárdenas Batel, o novo coordenador de assessores da presidência mexicana, tem sido o elo entre os representantes do regime cubano, presidido por Miguel Díaz-Canel, e colaboradores dos governos de Lula e Dilma Rousseff. O objetivo: uma adaptação mexicana do Mais Médicos, um programa que envolveu cerca de 15 mil especialistas cubanos designados para 1,6 mil municípios em algumas das áreas de mais difícil acesso do Brasil.
Cárdenas Batel é o herdeiro de uma dinastia identificada com as causas de esquerda no México. Tanto ele quanto seu pai, Cuauhtémoc Cárdenas Solórzano, mantêm sólida amizade com os membros do PT.
A relação entre Cárdenas e Lula e seus colaboradores mais próximos ultrapassa a diplomacia, diz Jesús Vázquez Martínez, colaborador de Cuauhtemoc Cárdenas quando ele foi governador de Michoacán (sul do México), na década de 80, e prefeito da Cidade do México, entre 1997 e 1999. “Ele sempre manteve a vocação para defender as causas da esquerda. Sua relação com Lula começou há pelo menos 15 anos”, explica.
Cuauhtémoc Cárdenas visitou Lula na prisão há três meses e disse várias vezes em público que o ex-presidente brasileiro é vítima de uma “injustiça”. Lula está preso acusado de corrupção, como parte da Operação Lava-Jato, que teve desdobramentos em vários países latino-americanos.
Vázquez Martínez lembra que Lula e o ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil Celso Amorim até foram à região de Michoacán em 2003, em uma rara visita de um presidente e membros-chave de seu gabinete a um Estado mexicano. Amorim foi precisamente quem manteve conversações com Lázaro Cárdenas Batel, o coordenador de assessores de Obrador para selar o acordo entre Cuba e México.
Cárdenas Batel mantém relação próxima com Cuba. Os laços ficaram em destaque quando ele foi eleito governador de Michoacán em 2002.
Mais de 400 funcionários cubanos atuaram como assessores de Cárdenas Batel do governo michoacano durante seu mandato – assim como o pai, ele comandou o Estado. Cinquenta professores cubanos ocupavam cargos na Secretaria de Educação local para um programa de alfabetização implementado apenas para esse fim. Ele conseguiu que outros fossem recebidos em programas semelhantes em Oaxaca, Veracruz e Tabasco.
“Eram programas feitos sob medida pelo governo cubano”, garante um dos colaboradores do governo de Cárdenas Batel, em Michoacán. Mesmo sob críticas, os cubanos ocuparam cargos em saúde, educação e arte, todos sob a influência do herdeiro da dinastia Cárdenas. “Essas colaborações até agora foram em Estados mexicanos, mas nunca haviam sido consideradas uma política federal.”
Mas a conjuntura produzida em apenas três meses e os cenários políticos no México e no Brasil permitiram que as habilidades diplomáticas de Cárdenas Batel saíssem em resgate do Mais Médicos, um programa que o regime cubano mantém em 67 países.
Modelo europeu
Os médicos cubanos que participarem de missões no México deverão receber um quarto de seu salário. O restante ficará com o regime cubano. Obrador disse que o esquema atual de saúde pública no México é “insuficiente” e prometeu que sob seu governo, os mexicanos terão acesso a um sistema semelhante ao do “Canadá, Dinamarca, Inglaterra e países nórdicos”.
Os caminhos para um sistema de saúde como os exemplos citados pelo novo presidente mexicano parecem difíceis. Os números do México em relação à saúde são alarmantes: mais da metade dos mexicanos não tem acesso a nenhum tipo de seguridade social.
Lançado em julho de 2013 no Brasil pela então presidente Dilma Rousseff (PT), na esteira dos protestos por melhores serviços públicos, em junho do mesmo ano, o Mais Médicos teve a participação majoritária de cubanos, até o dia 14 de novembro.
O governo cubano decidiu então encerrar a parceria, intermediada pela Opas (Organização Pan-Americana de Saúde), depois de o presidente eleito, Jair Bolsonaro, dizer que pretendia alterar termos do acordo.
Também estaria prevista a aplicação de uma prova de avaliação. Desde o rompimento, o programa abriu vagas para suprir a saída de cerca de 8 mil cubanos.
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